Capa da Justice League 3001 #2 por Howard Porter e Hi-Fi

Capa da Justice League 3001 #2 por Howard Porter e Hi-Fi

No Sábado, eu publiquei um artigo enfezado com a covardia e o cinismo da DC Comics. Você pode lê-lo aqui.

Primeiro, quero dizer que eu não estaria escrevendo um segundo artigo retratando o que disse no primeiro se ele não tivesse tido uma visibilidade tão grande. Soltei um texto no Sábado, quando geralmente não sai artigo aqui no NTT, porque o escrevi logo depois de saber da notícia, enquanto ainda saia foguinho das minhas orelhas. Nunca é uma boa idéia escrever algo e publicar com raiva. Comecei a me dar conta disso na revisão do texto, mas ainda assim apertei o botão “publicar” porque pensei “que diabo, ninguém vai ler mesmo”.

Só que muita gente leu. Pra você ter uma noção, o NTT recebe entre quarenta e setenta visitas quando tem texto novo. Meu texto “DC Comics tenta ser menos machista e falha miseravelmente” recebeu, só no Sábado, mais de trezentas visitas. Dá pra ver o quão pouco eu dava valor ao meu próprio artigo e o quão no calor do momento ele foi escrito pelo permalink, que revela que eu modifiquei o rascunho de um outro texto que eu estava escrevendo: “http://noticias.terceiraterra.com/cheguei-no-marvel-now/”.

Acertadamente, o Pablo Sarmento, do Terra Zero, “called me on my bullshit”:

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Atualmente, a DC tem mais que o dobro de revistas-solo de super-heroínas que a Marvel, que contrata um terço da quantidade de mulheres que a DC contrata. Se você acompanha o blog Straitened Circumstances, sabe que Tim Hanley traz, todo mês, uma lista das quadrinistas creditadas pelas duas editoras, comparando os números com o mês e o ano anteriores. A DC melhorou, e muito, desde o começo dos New 52 em 2011, quando a quantidade de mulheres trabalhando na DC Comics caiu de 12% para 1%.

Eu fui bem babaca em puxar os podres da DC na internet sem fazer o mesmo com a Marvel. Eu tenho certeza que uma busca rápida no Google traria muito caso de machismo e racismo por parte da Casa das Idéias no passado recente (como esta pérola do Stan Lee, por exemplo). E de outras editoras também: minha querida Valiant Comics não emprega praticamente nenhuma mulher, apesar das tentativas da editora de incluir no elenco personagens de minorias étnicas ou mulheres que não sejam hiper-sexualizadas.

O problema é generalizado e endêmico na indústria de quadrinhos como um todo, uma indústria que nas últimas décadas alienou sistematicamente as mulheres no seu público, focando cada vez mais e mais nas “power fantasies” de garotos entre 14 e 25 anos de idade. A aceitação do mercado consumidor feminino vem acontecendo devagar e recebe resistência de artistas e editores, até então confortáveis no seu Clube do Bolinha hegemônico.

Outra coisa que fode na indústria inteira é essa idéia de que os tímidos avanços estão de bom tamanho. “Hoje há mais gibis-solo de heroínas que no passado. Vinte e três só na DC? Tá bom, né? Vocês feminazi ficam aí chateando, reclamando e forçando a barra pedindo ações afirmativas, mas um dia vai acontecer mesmo! Gail Simone! Gail Simone!”* Essa atitude prevalente de que igualdade de gênero e raça é uma coisa inevitável, que se esperarmos por tempo o suficiente e pararmos de chatear, de pedir mais participação, mais mulheres e minorias sendo empregadas, mais iniciativas de diversidade, elas vão acontecer por conta própria.
*Foi assim que uma cosplay foi silenciada no painel dos New 52 na San Diego Comic-Con em 2011. Sua pergunta: “quando vão contratar mais mulheres?” À época, Simone e a editora Rachel Gluckstern eram as únicas contratadas da DC Comics que não tinham pinto. Fonte: DC Women Kicking Ass

Conversa fiada. A mudança só virá com pressão incessante, com tolerância zero com editores, roteiristas e desenhistas babacas, com mais blogs e podcasts prestando atenção, apontando o dedo e batendo sem dó nem piedade. Quase metade dos fãs de quadrinhos são mulheres, e eu só irei descansar quando as criadoras de quadrinhos também forem. Vinte e quatro diferentes quadrinistas mulheres em vinte e três títulos não é o suficiente, nem de longe. Como o próprio Tim Hanley escreveu, “They’re capable of a higher number than this”.

O mesmo vale pra Marvel. É muito bom que eles tenham um podcast na iTunes Store chamado Women of Marvel, gravado dentro da empresa por quadrinistas contratadas por ela. É um começo… mas não basta. Quem se sente satisfeito com essas migalhas do patriarcado faz parte do problema.

Capa de DC Comics Bombshells #1 por Ant Lucia

Capa de DC Comics Bombshells #1 por Ant Lucia

Isso não quer dizer, porém, que eu esteja livre de policiar as babaquices de minha autoria, ou de ser policiado por outrem. No meu texto de Sábado eu fui parcial e birrento. Convenientemente não comentei, por exemplo, da série DC Comics Bombshells, que tinha tudo pra ser machista e objetificar as super-heroínas da editora mais do que elas já são, mas esquivou bonito. Não é só uma mini-série protagonizada por mulheres, mas feita por elas também: a DC acertou em cheio contratando estrela em ascenção Marguerite Bennett para escrever e a talentosíssima Marguerite Sauvage para desenhar. Mesmo a arte de capa de Ant Lucia foi mais respeitosa do que o artista geralmente é contratado para desenhar.

Analisando calmamente a situação que provocou meu texto de Sábado, eu posso culpar minha explosão ao jeito que o Omelete noticiou. O Newsarama, o IGN e o Terra Zero abrem e entitulam suas reportagens claramente: “Coming to DC in ‘3001’: an all-female Justice League'”, “Justice League 3001 to be all-female next year” e “Justice League 3001 terá elenco composto só de heroínas”. Se eu tivesse lido uma dessas matérias antes ou ao invés de ter sido atraído (e traído) pelo tuíte do Omelete, aquele texto de Sábado jamais teria sido escrito. Portanto, se eu quiser culpar alguém além do cara no espelho, posso culpar o Omelete…? Heh-heh. Não. Eu deveria ter feito o que sempre faço: lido a fonte original do texto. Já me safei de falar muita asneira no Por trás da Máscara ao fazer isso. Desta vez, falhei.

Portanto, obrigado a todos pela inesperada audiência, mas obrigado mesmo ao Pablo Sarmento por ter me lembrado que o preço da liberdade é a eterna vigilância.

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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