Quantas vezes você já conversou com alguém sobre RPG e descobriu que a pessoa é um boçal, racista e completamente ignorante? Eu já passei demais por essa situação, a ponto de ter ficado cansado de explicar o óbvio ululante pra racistas e machistas e ter desistido de jogar RPGs em público muitos anos atrás.

Recentemente a Osprey Publishing, uma editora britânica que tradicionalmente foca em livros e jogos de tabuleiro militares, começou a publicar livros de RPG. Acabei adquirindo Paleomythic, mas o jogo que me motivou a escrever hoje foi outro, lançado ao mesmo tempo, chamado Romance of the Perilous Land e escrito por Scott Malthouse.

Romance of the Perilous Land  é um RPG que se passa numa versão mística da Inglaterra do Rei Artur, cheia de mágica, feiticeiros, monstros, aventuras fantásticas e perigos, inspirada nas lendas e no folclore das Ilhas Britânicas.

O jogo provocou “controvérsia” entre os racistas burros ignorantes de plantão porque — pasmem! — tem uma pessoa negra na capa! Como assim, você não sabe que negros só foram inventados no século 19? É óbvio que é impossível haver gente negra na Europa medieval, afinal de contas havia uma muralha quilométrica entre a África e a Europa, que impedia que gente africana fosse pra Europa, um continente que viveu completamente isolado, sem qualquer conhecimento das terras da Ásia ou da África por milhões de anos!

Capa do jogo Romance in the Perilous Land. Ilustração por John McCambridge

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Esse tipo de burrice é infelizmente muito comum. Se é a burrice que vem do racismo ou se é o racismo que advém da burrice, eu não sei. O que sei é que gente racista é muito burra. E usam as desculpas mais imbecis pra justificar a falta de inteligência. Eu sou formado em História pela Unesp de Franca, mas nunca precisei de um diploma de grife pra entender que é muito imbecil quem pensa que tá tudo bem ter elfos, dragões, bruxas e deuses em uma aventura de RPG que faz analogia à Idade Média Européia, mas que acha um absurdo se vêem uma ilustração de um negro! Elfos? Beleza. Dragões? Tudo bem! Negros?! AIMEUDEUSQUEABSURDO! Eu recomendo pra esses babacas passarem dois minutos no Tumblr chamado People of Color in European Art History (medievalpoc.tumblr.com). Não porque eu acho que vão aprender alguma coisa, mas porque acho que vão ter uma síncope e morrer de derrame depois de verem a gigantesca e super-comum presença de africanos em arte medieval européia, de comerciantes a santos católicos, de plebeus a cavaleiros medievais.

A desculpinha do racista é, desnecessário dizer, super-patética e tão complexa quanto seu cérebro de ervilha: verosimilhança (me pergunto se esses idiotas se quer sabem soletrar “verosimilhança” — ou se sabem o que quer dizer a palavra “soletrar”). Se formos fazer um jogo de RPG que se passa na Europa medieval, então verossimilhança dita que temos que ver gente de pele escura nesse jogo. Afinal, soldados africanos romanos habitavam a vila de Burgh by Sands, no noroeste da Inglaterra, há dois mil anos atrás. Ao contrário, eu não me lembro de ter lido sobre muitos elfos, anões, nagas ou grifos na disciplina de História Medieval na faculdade. Estranho…

Por fim, a Osprey Publishing fez não mais que sua obrigação: não só não mudou a capa do RPG, como defendeu a existência de um negro na capa de um RPG que se passa na Inglaterra medieval. Aliás, nem precisava explicar nada, né? Era só mandar os imbecis estudarem um pouco de história.

Fonte: “Osprey Roleplaying stands firm against racist social media backlash“. Geek Native, 13 de Fevereiro de 2020.