Havia dias que ele andava pelas areias escaldantes. Sua pele, já naturalmente bronzeada, mostrava diversos sinais de queimaduras intensas; Bolhas e descamados se misturavam com marcas antigas do chicote e cicatrizes obtidas honradamente em seus muitos combates na arena. Sua boca estava seca, como se cheia de areia, e seus olhos ardiam, queimando como se o próprio sol que se encontrava sobre sua cabeça estivesse dentro deles. Mesmo não sendo um expert no deserto ele sabia que se não encontrasse água e abrigo logo seu destino seria servir de alimento para as muitas feras que o espreitavam. Sim, o velho que morava no beco do mercado havia lhe dito que viver sob o chicote podia ser duro, mas ainda era mais doce do que ter que buscar por conta própria alimento e a tão preciosa água. O velho também havia dito muitas outras coisas, algumas que agora até se mostravam úteis, e graças a essas coisas ele havia conseguido sobreviver até ali, tendo matado um lagarto, bebido seu sangue e comido sua carne, mas apenas um pouco, para que a comida não sugasse muito de sua energia e a boca seca lhe devorasse horas preciosas sem água, como o velho ensinara.

Sua vida antiga ficara para trás, separada dele agora por quilômetros de areia, silte e dias de viagem, mas era impossível não pensar nela nesse momento tão desesperador e Kyrek se pegou pensando no que ele estaria fazendo naquele momento em um dia normal; Provavelmente o treino já teria acabado — o calor excessivo não era bom para a saúde dos gladiadores, eles deveriam morrer na arena e não desidratados no pátio de treino – talvez, se todos tivessem se comportado e treinado com empenho, eles poderiam desfrutar de uma ração extra de água e, para os grandes campeões, como ele próprio, até mesmo de uma tina com água, para retirar a poeira grudada ao suor e se refrescar. Mais tarde, quando o abençoado frescor da noite chegasse, após as refeições e os cultos, ele provavelmente seria chamado para o salão de seus amos, para divertir algum convidado, lutando com um bastão de madeira contra uma criança, uma jovem donzela ou um rotundo mercador, incapaz de dar mais do que três ou quatro golpes sem praticamente morrer de tanto ofegar e sempre perdendo — afinal ele era um gladiador, um servo, um escravo… O pensamento tirou Kyrek de seu devaneio: ele era um escravo, nada além disso, não importava se dentro da arena, com a carrikal em suas mãos, coberto pelo sangue de seu adversário ele era um guerreiro, um campeão, um deus da guerra… Não importava se muitas das donzelas que o venciam nos combates simulados, derrubando-o e forçando-o a pedir clemência sob as gargalhadas dos demais convidados, acabavam a noite em sua cela, em seus braços, não importava se seus amos… quer dizer, Elorra e Aguermon, já que agora ele era um homem livre e não tinha mais amos — o tratavam como um filho, pelo menos segundo eles, afinal Kyrek nunca viu os velhos colocarem qualquer um dos seus verdadeiros filhos, afeminados, perfumados e incapazes de segurar sequer uma adaga de obsidiana sem se cortarem, dentro da arena onde o sangue escorria quente e o barulho das arquibancadas era ensurdecedor. O velho era diferente, ele próprio fora um gladiador, escolhera essa vida em busca de fama e glória, vendendo a si próprio para o pai de Elorra e ganhando não apenas dentro da arena, mas fora. Alguns diziam que o pai de Elorra libertara Aguermon, seu principal campeão, porque sua filha ficava doente de amor cada vez que ele entrava na arena e desafiava a morte, mas a verdade, que corria a boca miúda no refeitório dos gladiadores, contada por Ghad’ho, um velho aleijado que fora gladiador no tempo de Aguermon, e que ainda era escravo, apesar de agora ser tão fraco quanto um passarinho, era que o verdadeiro motivo da jovem sofrer tanto e da intempestiva decisão de seu pai fora, na verdade motivada por outra razão, uma criança que crescia em sua barriga, algo com o qual Kyrek nunca sonhou: um filho; Híbridos como ele eram estéreis e por isso muitas das mulheres ricas de Nibenay os preferiam como amantes, certas que assim levantariam menos suspeitas de seus maridos.

Fosse como fosse, Kyrek tinha agora outras prioridades, muito mais urgentes do que devanear sobre as areias escaldantes: Ele avistara um pequeno oásis e, apesar de seu corpo praticamente ordenar que ele corresse em direção à água, ele sabia do risco de encontrar inimigos diversos: Elfos prontos para venderem-no ao primeiro mercador que passasse, halflings canibais e até mesmo monstros que habitavam locais como aquele, pelo menos foi isso que o velho lhe disse. Então fez como o velho lhe ensinara e aguardou até que a noite caísse. Seus membros estavam fracos, sua pele estava cheia de bolhas, mas ele sabia que estaria seguro. O oásis aparentemente estava vazio e, portanto, era seguro se aproximar.

Continua na próxima sexta-feira…

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