Mesmo com pederneira e isqueiro não foi fácil para o ex-gladiador fazer fogo, levando quase duas horas para que finalmente as chamas saltitassem da pequena fogueira. Suas mãos estavam acostumadas ao cabo de uma arma não aos trabalhos diários, que eram obrigação de escravos menos importantes do que ele, escravos que, apesar disso acabavam desfrutando muito mais liberdade do que um campeão gladiador, afinal era necessário que alguém fosse ao mercado, às latrinas, que alguém limpasse os telhados, varresse a arena de treino, cozinhasse, mantivesse a água dos banhos morna durante o frio da noite e fresca durante o calor abrasador do dia e, para que tudo isso ocorresse, esses escravos podiam circular praticamente livres dentro dos muros da cidade enquanto ele, um campeão, um deus da arena, só podia sair do pátio dos treinos para a arena e da arena de volta para o pátio dos treinos. O mercado, assim como a taverna e os prostíbulos só podiam ser visitados raramente, quando ele se mostrava dócil e suas lutas rendessem bem. Nesses momentos Aguermon lhe permitia pequenos passeios, desde que devidamente acompanhado por outros servos, é claro. O velho sempre dizia que era para o seu bem, para aumentar a sua glória, afinal um grande campeão deveria ter uma escolta para carregar o toldo que o protegeria do sol, lhe levar água, carregar qualquer coisa que ele quisesse comprar e até lhe servir como um banco caso ele assim o desejasse, segundo o velho, isso garantiria que quando ele fosse libertado as pessoas fossem capazes de reconhecer sua magnanimidade de outrora e o tratassem como um cidadão de respeito. Kyrek sabia que tudo não passava de uma grande mentira. No seu primeiro passeio um dos servos, mais assustado que os demais, sacou de um bolso escondido um apito de osso igual ao que a guarda da cidade usava para chamar uns aos outros em momentos de problema, quando o gladiador se afastou um pouco para olhar uma banca e naquele momento Kyrek soube que a verdadeira função daqueles ratos era chamar a guarda se ele esboçasse uma tentativa de fugir. Mesmo assim era doce a perspectiva de ser livre e Aguermon lhe garantia que, quando fosse livre, ele poderia continuar trabalhando para ele, caso quisesse, treinando outros gladiadores enquanto ouro, mulheres e glória afluiriam abundantemente.

Kyrek acordou com um calafrio percorrendo sua espinha, a pequena fogueira havia se apagado e o frio da noite estava mais suave do que o esperado. Apesar do sol ainda não ter despontado no horizonte, ele sentiu um bafo morno e foi essa sensação que o fez se levantar desesperadamente, recolher seus poucos bens e correr como um louco para longe do oásis. Ele ouvira histórias demais do velho do beco para arriscar ficar parado em algum lugar que alertava seus sentidos para o perigo. Quando finalmente olhou para trás o gladiador não era mais capaz de achar o oásis em que se abrigara. Sem outra opção, virou na direção que vinha seguindo e continuou seu caminho enquanto o sol começava a despontar no horizonte, vermelho escuro, um sinal de mais um dia escaldante que estava por vir. Ele sabia que agora, nesta situação desesperadora, era preciso voltar para as rotas das caravanas, achar um grupo que não estivesse indo ou vindo de Nibenay, ou até mesmo um caravançará e lá arranjar algum tipo de trabalho; Ele era forte, um mestiço capaz de aguentar muitas vezes mais trabalho que um humano e muito menos difícil de lidar do que um anão. Talvez, mesmo que o reconhecessem, os líderes das caravanas achassem que não valia enfrentar um ex-gladiador num combate em que eles tinham tudo a perder enquanto que ele nada tinha, talvez… Pensando em retrospecto Kyrek percebeu que ele nunca teve nada a perder, sua mãe, uma escrava, morrera no nascimento, enquanto seu pai um mineiro, não lhe deu mais atenção do que daria a cria de uma cadela que vivia em sua casa. Quando Kyrek tinha cinco anos ele foi vendido, inicialmente para um mercador de escravos, de lá para o dono de uma caravana, mas seu temperamento agressivo e sua propensão à violência chamaram a atenção de Aguermon. Quando o pobre caravaneiro parou em Nibenay para vender seus bens e achou por bem colocar o arredio jovem à venda, o velho, que desde o primeiro dia, fazia questão de que Kyrek o chamasse de pai, disse que dobraria sua vontade e que um dia ele seria o maior gladiador de todos os tempos. Nos próximos anos, durante seu árduo treinamento, o chicote, o bastão disciplinador e a cela foram seus companheiros mais frequentes enquanto seus brinquedos foram as armas de madeira; Mas o velho cumpriu sua palavra e Kyrek se tornou um guerreiro imbatível dentro das arenas, sua agressividade fora controlada pelo chicote, canalizada para seus adversários, sua fúria, antes explosiva e sem qualquer direcionamento, fora concentrada no uso das armas. Kyrek aprendera a gostar dos brados vindos das arquibancadas, eles coroavam sua habilidade, enchiam de glória suas lutas. Cada inimigo tombado, pensava ele, era um degrau em direção à liberdade, ao dia em que lhe seria dado a palma de vencedor juntamente com a chave de seus grilhões, por isso ele não hesitava, não tinha o menor resquício de pena pelos outros gladiadores, eles eram escravos, Kyrek não, pelo menos assim ele pensava, e cada luta sua era comentada durante semanas, ele se tornara melhor, maior e muito mais cruel, suas lutas demoravam horas às vezes, enquanto, como um grande predador das areias, o jovem gladiador brincava com seu adversário, ferindo-o, mutilando-o, humilhando-o, até que a multidão, ensandecida pelo espetáculo oferecido, clamava pela cabeça do pobre, o que Kyrek atendia com um sorriso cruel nos lábios.

Continua na próxima sexta-feira…

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