Kyrek nada sabia das rotas de caravanas, mas suspeitava que talvez aquela fosse uma. A areia estava cheia de pegadas misturadas que o vento quente do deserto ainda não apagara, sinal de que uma caravana havia passado há pouco, ele não sabia dizer direito para qual direção, mas depois de tentar seguir em uma das direções  que se afastava ainda mais de Nibenay, se viu obrigado a refazer o caminho, já que as pegadas acabavam de forma abrupta. O velho lhe dissera que nem sempre os caminhos das caravanas eram linhas retas, os caravaneiros seguiam trilhas ancestrais, sinuosas como o corpo de uma dançarina, que só eles eram capazes de encontrar e que iam saltitando de oásis a oásis, paradas seguras em meio ao deserto cheio de perigos. O gladiador só esperava que aquela trilha não o levasse de volta para o chicote e, provavelmente, à morte na arena nas garras de monstros e feras, ainda mais depois do que fizera para poder escapar… Mas não podia mais aguentar aquela vida, não importava se, quando não estava na arena, seus trajes fossem feitos com a melhor seda, suas sandálias de couro eram decoradas com ouro e prata, que sua comida era tão boa quanto a que qualquer nobre comeria e que o vinho e a água estavam sempre à sua disposição. As histórias do velho, de suas viagens pelo deserto, de seus combates e até de seus sofrimentos – sofrimentos de um livre não de um escravo; Ele queria ser livre, ele devia ser livre. Kyrek se tornou cada vez mais irascível, suas lutas não mais rendiam tanto, já que ele entrava na arena e trucidava seus adversários, não havia espetáculo, não haviam apostas, ele ainda era o campeão, mas era um campeão que ninguém queria assistir lutando. Aguermon procurou o gladiador em sua cela, algo que ele nunca fizera até então, e procurou convencê-lo do erro. Doces promessas de prêmios, permeadas por leves ameaças caso continuasse a agir daquela forma, deram a tônica da conversa, até que, irritado Kyrek loucamente atacou o velho, atitude que amargou profundamente depois.

A noite caía novamente quando ele finalmente avistou algo que poderia salvar sua vida… Durante todo o dia ele perseguiu aquelas pegadas como se fossem sua única salvação, e talvez fossem mesmo, chegando até a cruzar com um pequeno grupo de elfos, correndo em seu estranho transe sobre as areias, mas da mesma forma que eles não prestaram atenção no gladiador Kyrek não perdeu seu tempo com esses ladrões das dunas. Kyrek estava ansioso agora que a caravana estava tão perto, ele temia que aqueles caravaneiros o atacassem, mas também temia algo muito mais simples, que eles lhe negassem um gole da preciosa água. Com cautela ele se aproximou, mantendo o controle o melhor que podia e tentando parecer simpático e nada ameaçador, apenas um viajante perdido; Não podia ser assim tão difícil para ele que fingira durante anos ter aprendido a “lição”.

Após a surra que levara, por ter ousado erguer a mão contra seu mestre, Kyrek amargou por um longo período – ele não sabia dizer se foram dias, meses ou anos – numa cela escura, abafada e sem qualquer abertura para que ele pudesse saber quanto tempo passara. De tempos em tempos a porta era aberta e, juntamente com uma parca ração de água e restos de comida, ele recebia uma nova surra, de forma que ele não sabia se abençoava o momento em que sua fome e sede eram aplacadas ou se temia a abertura da maldita porta. Um dia a porta simplesmente se abriu e ninguém entrou. O gladiador esperava outra surra, acuado como um filhote de gato contra a parede. Sua rebeldia estava soterrada sob a camada de escoriações, feridas abertas e enfraquecida pela falta de comida e água, a porta ficou aberta por um longo período, ele não sabia se arriscava sair, talvez fosse um teste, talvez queriam que ele esperasse alguém permitir sua saída, só era certo que a porta não fora esquecida aberta, aquilo era de propósito, tinha uma razão de ser, mas ele não sabia dizer qual era… Sua desconfiança era tão grande que ele esperou, o sol se pôs e se levantou duas vezes antes que ele tivesse coragem de, cautelosamente, se aproximar da porta e espiar o lado de fora, onde um longo corredor levava a parte externa da construção, esse corredor também estava vazio e a porta que dava acesso ao pátio de treinos estava aberta, sua coragem retornara, ou pelo menos o desejo de viver, agora que a fome e a sede alcançavam níveis que ele nunca sentira.O corredor, apesar de ter pouco metros de comprimento, pareceu levar horas para ser cruzado e ao atravessar a porta ele sentiu o clarão daquele sol a pino ofuscar sua visão. Quando finalmente foi capaz de enxergar o que estava à sua volta teve uma surpresa: Aguermon lhe aguardava, vestindo suas melhores roupas, com um sorriso quase sincero nos lábios, os escravos da casa estava postados, prontos para ampará-lo, com comida e bebida da melhor qualidade, da mesma forma que ocorria toda a vez que Kyrek voltava vitorioso das arenas. O recado era claro: até mesmo ele, enfraquecido pela privação e às portas da loucura devido ao longo isolamento fora capaz de entender. O gladiador não sabia o que fazer, mas sabia que se queria ser livre teria de ser muito mais astucioso do que fora até então, sua força bruta ou habilidade de combatente jamais o livrariam daquele lugar.

Continua na próxima sexta-feira…

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