Aqueles homens lhe haviam dado água e pão, não era um banquete, mas servira para matar sua fome e sede, também lhe trataram as feridas e lhe deram trajes mais adequados para andar no calor e no sol do deserto, em momento algum perguntaram quem ele era, nem esboçaram qualquer sinal de reconhecimento. Como o velho dissera, aqueles que viviam no deserto tinham outras preocupações, outros modos, eram generosos, pois um dia também podiam depender da generosidade alheia. Numa terra tão brutal todo dia podia ser o último… Mas uma parte sua, ainda desejosa dos aplausos e gritos, se perguntava como aqueles homens não o reconheceram, ele, o maior campeão que Nibenay já vira, vencedor de dezenas, centenas de combates dos mais variados tipos, solo, em duplas, contra animais e até contra grupos de gladiadores, e mesmo assim aqueles homens não mostraram qualquer sinal de saberem quem ele era, talvez ali estivesse a sua chance de recomeço, em meio a homens que não se importavam com quem ele era, seu rosto, coberto pelos pesados panos que o protegiam do sol e mantinham, pelo menos em parte, o calor longe de si, ajudariam a esconder sua verdadeira origem e sua identidade.

Kyrek aprendera a sua dura lição, ou pelo menos tirou dela o que melhor lhe convinha: não valia a pena tentar, de forma direta, buscar sua liberdade, Aguermon nunca o libertaria, mas se ele parecesse ter voltado a sua antiga forma, talvez isso reduzisse as suspeitas ao seu redor, podendo assim se mover com mais liberdade pela cidade, e assim pensar em alguma forma de fugir. Suas lutas voltaram a ser espetáculos que rendiam fortunas a seu dono e isso trouxe de volta as velhas recompensas e quando Kyrek se mostrou ainda mais dócil, suas recompensas aumentaram. Ele podia andar à vontade pelos mercados, ainda precisava levar consigo pelo menos dois escravos, mas facilmente os despistava quando os deixava bebendo por sua conta numa taverna local, voltando antes destes sentirem qualquer ameaça de que ele estivesse tentando escapar, assim os escravos rapidamente se acostumaram a essas voltas e era nesses momentos que o gladiador rondava cada beco, inspecionava cada parte da muralha, olhava as casa de guarda e os portões em busca de uma brecha que pudesse lhe ser útil quando empreendesse sua fuga. Sabia que teria que fugir sob o manto da noite, durante o dia rapidamente descobririam a sua fuga e homens armados da cidade, guiados por batedores e montados em inixes o encontrariam no deserto antes que ele tivesse qualquer chance de por uma distância real entre ambos. Foi num desses dias, após ter buscado infrutiferamente um caminho através das muralhas norte, esquadrinhando minuciosamente toda a região entre o portão dos loucos e a arena velha, e ter novamente se frustrado ao perceber que mesmo nos lugares onde a muralha estava danificada ela ainda tinha vários metros de altura, o que tornaria a escalada demorada e infrutífera, já que rondas de guardas passavam a cada poucos minutos e certamente o pegariam enquanto tentava alcançar o topo. Foi nesse dia que ele encontrou o velho, sentado sob a parca sombra oferecida por um toldo esburacado. Ele mendigava esmolas com a mão que lhe restara, seus olhos baços perscrutando os arredores em busca de alguma sombra em movimento, que lhe indicaria alguém que talvez lhe desse algumas moedas de cerâmica. A princípio Kyrek não prestou mais atenção nele do que prestava nas centenas de esmoleres que habitavam os becos e vielas; Homens, mulheres e crianças emaciados pela fome, queimados pelo sol e muitas vezes marcados pelos grilhões e chicotes de seus amos, já que não era incomum que alguns amos mandassem seus escravos mais fracos e doentes mendigarem nas ruas, arrancando assim até os últimos fiapos desses pobres diabos antes que a morte viesse reclamar sua parte, mas o velho era diferente, estava tão sujo quanto qualquer um deles e cheirava tão mal quanto um cão morto ao sol, seus andrajos eram tão esfarrapados que era impossível saber quais foram as cores deles um dia, mesmo assim o velho sentava-se como um nobre sob seu toldo furado, sua boca cheia de restos podres de dentes sorria com complacência para aqueles que lhes davam algumas moedas e apesar de um polido obrigado Kyrek não sentiu naquele homem qualquer sinal de submissão.

Continua na próxima sexta-feira…

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