A caravana chegara a outro entreposto e o ex-gladiador não tinha muita certeza se mais perto ou mais longe de Nibenay e de seus algozes. O dialeto falado pelos homens das dunas era tão confuso e recheado de expressões anteriores aos reis-feiticeiros que nem sequer parecia a mesma língua, mas seus trajes escondiam seu rosto e parcialmente o faziam parecer mais um humano qualquer. Kyrek se policiava para que não ficasse claro em nenhum momento sua herança bastarda, isso seria atrair atenção desnecessariamente. Mulos não eram empregados costumeiramente como carregadores, normalmente os híbridos eram escolhidos para as profissões em que suas mãos estivessem sempre sujas de sangue, gladiadores, guarda-costas e mercenários sobretudo. Os homens das dunas, entretanto, não prestavam mais atenção nele do que prestavam em outros membros do grupo desde que o aceitaram, o que não foi muito difícil, bastou que Kyrek pedisse educadamente por abrigo e água, oferecendo seu trabalho em troca… Daquele dia em diante ele era apenas mais um deles e, por mais incrível que parecesse, essa vida o estava agradando mais do que ele esperava. Quando finalmente fugira de Nibenay seu plano era de ir o mais longe o possível, encontrar algum lugar para se esconder e, quando fosse possível, criar um grupo de mercenários para ficar rico do único jeito que conseguia imaginar: com as mãos cheias de sangue, ou quem sabe, com um pouco de sorte, achando uma grande fortuna numa das muitas ruínas espalhadas pelo deserto. Era perigoso Kyrek bem o sabia, mas ele vivera a vida sempre no limiar entre a vida e a morte, e sem nenhum ganho real, portanto arriscar tudo na possibilidade de viver o resto de sua vida como um sultão, quem sabe até com sua própria cidadela fortificada e um harém, era muito promissora, mas nesse momento a vida como mercador o estava satisfazendo plenamente. Era duro andar dias no calor, carregar e descarregar os mekillots com sacas de sal de pedra, obsidiana, sílex, carcaças de criaturas do deserto, sedas e o que mais os mercadores conseguissem comprar, andar dias sob o sol escaldante e o frio enregelante das noites do deserto, algumas vezes dormindo sobre a sela dos inixes, mais de uma vez ele adormecera e acordara rolando pelas areias com as gargalhadas sinceras dos homens à sua volta, beber apenas alguns goles de água ou comer uma ração parca de carne seca ao sol, mas também eram doces as recompensas, os mesmos homens que riam quando ele caia por ter adormecido, o ajudavam a se levantar e a montar de novo, dividiam sua água e comida e, quando paravam em caravançarás maiores, lhe davam dinheiro para que ele pudesse gastar como bem entendesse, muito mais do que ele teve até então.

O velho o intrigara desde o momento em que Kyrek deitou sobre ele seus olhos, curioso com a postura relaxada e ao mesmo tempo quase nobre que ele adotava procurou em sua bolsa por algumas moedas e as jogou para o velho, que agradeceu e, procurando uma posição melhor e mais fresca, recuou um pouco mais para dentro da sombra de onde, com uma voz arranhada e ressequida, começou a cantarolar uma cantiga desconhecida numa língua difícil de ser entendida. O gladiador não conseguia entender o que a letra dizia exatamente, mas de uma forma estranha sua mente começou a formar imagens que falavam de grandeza, glória, riquezas e a tão desejada liberdade. Ele não sabia dizer quanto tempo ficou ali, no sol ardente, mas só retornou de seus devaneios quando um dos escravos que regularmente o acompanhava tocou em seu braço, despertando-o para o mundo ao seu redor, o velho se fora, ou melhor, ele caminhara inconscientemente de volta a taverna, onde um dos servos o viu passando em frente com um passo trôpego. As imagens assombraram Kyrek por dias, ele só conseguia pensar no velho, na sua postura indulgente, na sua voz roufenha, mas ainda assim dona de uma segurança que ele nunca sentira na vida, até mesmo os planos de esquadrinhar o restante das muralhas caiu em esquecimento por um tempo, ele só queria ouvir o velho cantar e quem sabe descobrir porque ele se mostrava tão feliz vivendo nas ruas como um cão sarnento. Outra batalha e outra vitória, dessa vez seu adversário era um meio-gigante que, no final, chorou pedindo clemência enquanto uma multidão ansiava pelo gesto que definiria o destino do pobre coitado, obviamente o desfecho foi como o esperado, sua cabeça rolara pelas areias, grudando no misto de lágrimas, areia e sangue, não havia clemência na arena, o que garantia ao gladiador mais uma oportunidade de andar pelas ruas. Kyrek foi em busca do velho intrigante e o encontrou no mesmo lugar, com a mesma expressão quase insolente, dessa vez além das moedas ele levara um pedaço de carne seca e um odre de água límpida, os quais o velho aceitou com a leveza de um rei que aceita o agrado de súdito, o gladiador então questionou o velho, quem ele era? De onde vinha? Que música era aquela? Porque ele, apesar dos andrajos, não parecia sofrer como os demais? E o velho, com um sorriso por encontrar tão ávido interlocutor, contou tudo, ou pelo menos quase tudo, apesar de nunca ter dito seu nome ou de onde vinha ele lhe contou sobre suas aventuras, seus dias de glória e riqueza, quando suas mãos ainda eram fortes o suficiente para segurar uma arma e ele viril o suficiente para ser o terror das prostitutas de todas as cidades estado. Kyrek ouvia atento cada história e aprendia, sorvendo das histórias não apenas as emoções, mas cada migalha de conhecimento que um dia lhe poderia ser útil quando fugisse: como sobreviver no deserto, a forma correta de se dirigir aos homens das dunas, onde ficavam os pontos fracos de um horror do silte, os nomes das ruínas que um dia foram cidades, sempre atento, sempre desejoso de mais e mais… A cada visita sua o velho contava novas histórias, em troca de comida, água e algumas moedas, até que finalmente o velho lhe deu a peça que falta em seu quebra cabeças, a forma de escapar da cidade, seria arriscado, mas era a única forma.

Conclui na próxima sexta-feira!

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