Kyrek se sentia muito mais relaxado, além de ter finalmente passado a confiar em seus companheiros, afinal mais de uma oportunidade de entregar o ex-gladiador às autoridades se mostrara e os homens do deserto não pareciam nem um pouco interessados em tal atitude.  A rota da caravana finalmente se afastava inexoravelmente de Nibenay, indo em direção ao oeste, onde o poder dos reis feiticeiros minguava e onde esses homens tinham seus vilarejos ancestrais escondidos entre as dunas sempre em movimento no enorme mar de areia. Kyrek já se sentia como um daqueles homens, ele ganhara seu próprio inix e estava responsável pela retaguarda da caravana, não era o melhor lugar, já que existia sempre o risco de um mekillot defecar em sua cabeça ou simplesmente resolver que iria mudar de direção, o que lhe demandava muitos gritos e algumas chibatadas para recolocar a criatura de volta em seu passo moroso na direção correta. Os prazeres eram tão simples quanto seus deveres, mas lhe faziam esquecer de sua vida e de tudo que fizera para conseguir ser livre. Apesar disso, à noite, quando a caravana parava em algum oásis e os homens se reuniam ao redor de uma parca fogueira que os protegia minimamente do vento frio muitas, vezes Kyrek demorava a adormecer, não era o som dos homens roncando, o resfolegar das grandes bestas enquanto se ajeitavam e se aproximavam para espantar o frio ou sequer os barulhos normais do deserto durante a noite, eram as suas lembranças, sobretudo às daquela noite fatídica, que o perturbavam.

Ele tentava se convencer de que o que fizera era necessário, que a jovem poderia acordar antes de sua fuga estar completa e estragar todo o plano, mas no âmago de sua consciência ele sabia que não fora isso que o motivara a estrangular a garota enquanto dormia… Ela sempre dormia até o sol estar alto no céu; Fora um sentimento vil de revanchismo contra todas as humilhações que sofrera, contra todos os senhores de escravos, contra todos os livres que o motivara… De qualquer forma agora não fazia diferença, ela estava morta e nada podia mudar esse fato, seu corpo jazia em seu leito, como se dormindo, o rubor ainda não desaparecera, o que contribuía para a ilusão. Fora fácil fazer com que a garota se apaixonasse por ele, ela era jovem e o romantismo não havia ainda abandonado de todo seu coração. Fora fácil manipular esse sentimento e transformá-lo numa paixão avassaladora. Desde a primeira vez que viu a jovem Kyrek vislumbrou nela a sua chance de fuga, fez com que a jovem acreditasse que ele se apaixonara, a envolveu com palavras doces e gestos carinhosos e fez com que a simples admiração comum e atração que todas as mulheres sentiam pelos gladiadores se tornasse amor verdadeiro, ou pelo menos o que a tola jovem achava que era amor. O gladiador levou essa falsa paixão em frente durante meses, cada vez mais granjeando mais e mais espaço e liberdade durante as visitas da jovem a sua cela, inicialmente uma escapadela durante a calada da noite, depois ela não mais saía antes de o sol aparecer, até o momento em que começou a exigir de seus amos que estes simplesmente deixassem tudo pronto para suas visitas. Ela era de uma família rica e extremamente poderosa, portanto Aguermon e Elorra faziam suas vontades, vislumbrando favores futuros e quem sabe até o pagamento de uma pequena fortuna pela compra de sua peça premiada. Kyrek ouvia seus planos, sussurrados pelos demais servos, e se preparava para sua fuga, aproveitando a cobertura que a ganância estava lhe proporcionando. Declarava seu amor, dava presentes e lamentava não ser livre à sua jovem admiradora. Ela jurava que o libertaria e que eles seriam felizes em sua própria casa, mas que precisava convencer seu pai de seu amor. Ele, por sua vez, após vários encontros, disse que lhe bastaria ter a privacidade que um casal de verdade tinha e a jovem então, de forma impetuosa, mandara que todos os servos, inclusive a sua guarda pessoal, deixassem o local, estava aberto o seu caminho. Kyrek ainda manteve sua farsa mais alguns encontros, para ter certeza que os guardas não voltariam durante o meio da noite, até a noite certa. Não havia lua aquela noite e apesar do céu estar claro e do brilho pálido das estrelas pouco podia ser visto. O pátio estava marcado pelas sombras alongadas das construções e não havia luzes na casa, Kyrek a estragulara após fazerem amor e a jovem adormecer em seus braços e por mais que uma parte sua a odiasse como odiava a todos os senhores de escravos, ele não aguentaria ver a reprovação em seus olhos. Em seguida ele se esgueirou até as cozinhas, onde apenas um escravo dormia, foi fácil quebrar seu pescoço e esconder seu corpo em uma das latrinas, lá ele pegou um saco, onde colocou algumas coisas que encontrou, como um pederneira, um isqueiro, alguns pedaços de carne seca, um pão ainda fresco e um odre, que ele encheu com água fresca do reservatório. Lamentava não ter uma arma, mas seria perigoso demais tentar chegar no arsenal. Sair da casa foi um pouco mais complicado, mas sem guardas no pátio ele só teve que tomar cuidado para não fazer barulho ao escalar o muro que o separava das ruas da cidade. Uma vez lá ele rapidamente tomou uma das ruelas menores e seguiu para um beco aparentemente vazio, era muito tarde e nem mesmo os prostíbulos estavam abertos, não havia pessoas nas ruas e os guardas estavam abrigados do frio em suas casernas ou nos postos no alto da muralha da cidade. Apenas uma velha grade de madeira meio podre protegia a entrada daquele duto aparentemente abandonado. Kyrek rapidamente o derrubou com o pé e, seguindo o caminho que o velho lhe ensinara, andou por baixo da cidade por algumas horas, entrando e saindo de dutos ancestrais, provavelmente anteriores a própria cidade que se erguia sobre eles, até sair a alguns quilômetros da cidade. O sol ainda não nascera, mas ele precisava se por a caminho o quanto antes, abrir distância entre ele e seu passado, suas lembranças e seus crimes.

© 2010 Andy Brase

© 2010 Andy Brase

Kyrek acordara assustado, suas lembranças voltavam num turbilhão e a culpa pelo assassinato da jovem o assolava cada vez mais frequentemente. Mesmo que ele afogasse essas lembranças em bebida sempre que tinha a chance, a paz que ele almejara estava se escoando como areia numa ampulheta, dia a dia. Primeiro, ele achou que os gritos que ecoavam eram apenas fantasmas de seus pesadelos, ele levou alguns segundos para entender o que estava acontecendo ao seu redor, quando sua lucidez finalmente voltou ele desejou, por um momento, que fosse apenas outro pesadelo. Uma monstruosidade emergira das areias, ele não sabia bem ao certo do que era, mas sua boca era recheada de dentes. Tentáculos tateavam ao redor, esmagando qualquer coisa que encontrassem. Ele não conseguia distinguir olhos, mas a monstruosidade parecia encontrar suas vítimas por outros meios. Alguns dos mellikot haviam conseguido se soltar e estavam em debandada, esmagando, em seu terror cego, homens e inixes que estavam amarrados. Alguns dos homens tentavam lutar com a criatura, mas estavam tão despreparados e assustados que eram vítimas fáceis daquele monstro. Kyrek estava aterrorizado. Nem mesmo seus muitos anos nas arenas o haviam preparado para aquilo, ele sabia que era tarde demais para fugir. Se a criatura enganara os experientes caravaneiros era um sinal de que não era um monstro comum. Por um momento o pensamento de virar as costas e correr, na esperança de conseguir fugir, lhe passou pela mente, mas ele não poderia abandonar aqueles homens que lhe deram uma chance de ser livre, e que agora lutavam, com fogo, gritos e armas frágeis de obsidiana contra aquela monstruosidade. Em sua mente o rosto da jovem, olhando-o com reprovação, aparecia e ele claramente escutava a sua voz infantil chamando-o de covarde. Apenas uma escolha lhe parecia certa, uma escolha de homem livre, assim ele correu em direção a uma lança caída, ela era bem comprida, talvez ele conseguisse acertar algum lugar macio no ventre da fera, o velho sempre lhe disse que por mais terrível que o monstro fosse haveria um ponto fraco, e arremeteu com um grito forte o bastante para fender os céus. Se ele tivesse que morrer, morreria ali, como um homem, finalmente livre.

☀ F I M ☀

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