Texto original por Carolyn Petit publicado no Tumblr e traduzido sob autorização.


Notas de tradução [N.T.]:

  • Agenda >> pauta.
  • Social Justice Warrior >> ativista de sofá.
  • Schlub >> pateta, idiota. No contexto, optei por traduzir como mendigo.

Em louvor pelo discurso da Emma Watson à ONU e criticando as vozes feministas engajadas em críticas sérias em relação a video games, um importante designer de games tuitou o seguinte:

É bom — de fato, CRUCIAL — ter um movimento que defende igualdade de gêneros sem ser baseado em ignorância ou pauta de ativistas de sofá.

Olha só: não dá para avançar na igualdade de gêneros sem ter algum tipo de pauta. Não digo isso para esvaziar o discurso da Emma Watson, que aliás acho que foi feito para excitar as pessoas, estimulá-las e fazê-las quererem participar de um movimento que, espera-se, irá nos guiar em direção a atitudes concretas com o objetivo de produzir uma sociedade mais eqüânime. O discurso dela serviu a esse propósito de forma admirável. Mas, no discurso, a própria Emma Watson referencia a famosa máxima de que para o mal triunfar basta que o pessoas de bem não façam nada. Não é suficiente apenas concordar de forma apaixonada com ela e depois seguir com a própria vida, orgulhoso de que, já que você já acreditava na noção de que mulheres deveriam receber o mesmo respeito, as mesmas oportunidades e os mesmos privilégios dos homens, você não é parte do problema.

Eu me considerei feminista em algum sentido vago da palavra por muito tempo mas, tristemente, não acho que eu tenha realmente entendido a importância de ativamente se opor ao patriarcado e criticar as ideologias culturalmente dominantes a respeito de gênero até eu dar de cara com essas forças como conseqüência de simplesmente existir e tentar realizar um trabalho em particular como uma mulher transgênero [N.T.: Carolyn foi jornalista e crítica de jogos para o portal GameSpot por quatro anos]. Imediatamente ao começar a trabalhar para o GameSpot e aparecer em vídeo no website, comecei a receber inúmeros comentários de leitores do sexo masculino reclamando que, como clientes da página e seu público-alvo, GameSpot deveria sempre saciar seus desejos em primeiro lugar e que, para eles, o papel das mulheres no mundo dos video games deveria ser, primeiramente, de serem atraentes. Ao contratar e colocar em frente às câmeras uma mulher transgênero não compatível com seus critérios de aparência, o portal estava descumprindo com seu dever, traindo sua clientela. Os homens do website, claro, poderiam se parecer com mendigos: eles eram valorizados pelo que eles tinham a dizer sobre video games. Mulheres, não. Foi então que eu descobri que eu nunca seria valorizada pela audiência do mesmo jeito ou pelas mesmas razões que meus colegas do sexo masculino. E eu soube então que parte do esforço em desconstruir essa cultura, que leva jovens homens a pensarem em mulheres daquele modo, requereria encorajar as pessoas a pensarem criticamente sobre como questões de gênero são retratados na mídia.

Pode ser fácil dizer que aquele tipo de atitude é normal em adolescentes imaturos que irão simplesmente deixar isso para trás ao crescerem. Mas essa é uma construção cultural onipresente. No episódio mais recente de Last Week Tonight, John Oliver ataca o concurso de Miss America. Minha parte favorita começa aos 5:08, quando Donald Trump diz a uma repórter que ela não teria aquele emprego não fosse ela linda.

Sim, é vulgar e é um insulto. Pode também ser verdade. É freqüentemente exigido das mulheres que elas sejam atraentes de um jeito que homens não precisam ser para aparecerem em frente a uma câmera, não apenas no mundo do jornalismo sobre video games, mas em todo tipo de jornalismo. É ao mesmo tempo sintomátio e amedrontador saber que “o maior distribuidor de bolsas de estudo para mulheres do mundo” é o concurso Miss America, que requer que as mulheres desfilem como espécimens para avaliação científica de seu grau de atratividade. O fato das mulheres serem objetificadas, marginalizadas e não-raro valorizadas por quão atraentes elas são é uma realidade socialmente construída e não uma inevitabilidade “natural”. É algo ao mesmo tempo refletido e estimulado pela mídia: por filmes, TV, video games, revistas e concursos de beleza. Essa realidade não vai mudar sem se mudar, também, a cultura.

É verdade que eu tinha algum tipo de “pauta” como uma crítica de jogos. Eu acho que se pode dizer que todo crítico tem uma pauta que é moldada por suas experiências e por sua visão de mundo. Nesta entrevista, a criadora de um novo website declara que sua página será para “todos os gamers, desde que eles não estejam por trás de alguma mensagem sócio-política, porque obviamente há pessoas que jogam video games que querem ver suas mensagens sociais espalhadas por aí — mas esse não é nosso negócio.” Quando questionada se uma resenha que critique um jogo por retratar estupro teria espaço no site, ela respondeu: “esse é exatamente o tipo de mensagem social que estamos tentando evitar.” Só que é uma pauta se esforçar em não se engajar com os significados sócio-políticos dos video games! Tanto quanto é também uma declaração política pensar criticamente sobre os sentidos dessas coisas. Você tem uma pauta quando cegamente apoia ideologias presentes na mídia, deixa-as se espalharem acriticamente, sem comentá-las, permitindo que ela sejam consumidas mas não criteriosamente consumidas, apenas sendo absorvidas de modo acéfalo.

Eu não faço idéia do que estava pensando o game designer que tuitou aquela mensagem lá de cima, nem o que está pensando quem a apóia veementemente. Talvez eles vislumbrem algum caminho pelo qual cheguemos num mundo em que mulheres verdadeiramente tenham o mesmo grau de respeito que homens na nossa sociedade, um caminho que também nos permita continuar a viver num mundo em que representações femininas em jogos, na TV e no cinema sejam tão limitadas e absolutamente criadas especificamente para o consumo masculino. Talvez eles queiram poder tratar mulheres em jogos como objetos sexuais sem pensar duas vezes, sem se sentirem mal a respeito, mas ao mesmo tempo dizer que acreditam na igualdade entre os gêneros. Desculpe, mas isso dá trabalho. Requer ação. Não dá para alcançar essa igualdade a paritr de onde estamos sem ter uma “pauta”. Parte dessa pauta envolve denunciar o retratamento pobre, limitado e limitante do feminino tão presente da mídia que consumimos — e exigir algo melhor.

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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