A ideia deste texto surgiu há algum tempo, quando pensei em escrever sobre táticas militares (sobretudo antigas e medievais) nos moldes daqueles sobre bebidas e a história da espada, ou seja, tentar apresentar um panorama mais ou menos completo e tentar tocar nos pontos mais importantes do assunto, porém creio que seria muito mais difícil de escrever este texto sem que ficasse excessivamente superficial ou desnecessariamente grande… O texto da espada é um bom exemplo, pois, apesar de bastante longo, acabou por faltar muita informação (tanto que pretendo abordar novamente o tema, talvez não num texto exclusivamente falando sobre a espada). Desta forma, achei que poderia ser uma solução mais interessante escrever textos menores, sobre uma ou mais táticas relacionadas, na forma de uma pequena série, mais ou menos como a das classes de personagem (que ainda continuarei). Dito isso creio que posso realmente iniciar o texto.

O cerco é, resumindo bastante todos os detalhes envolvidos, o ato de, durante um determinado período um grupo de atacantes que, impossibilitados de invadir diretamente seu alvo, busca através do isolamento sistemático das fontes de alimento, água e qualquer contato com o mundo exterior, exaurir os defensores até que estes possam finalmente serem subjugados ou forçados a se renderem pela falta de como suprir até mesmo suas necessidades mais básicas, em resumo o cerco consiste em cortar completamente o contato dos inimigos com o mundo exterior até que estes desistam, sejam derrotados ou morram de fome, sede ou doenças.

"siege" por digital-fantasy

“siege” por digital-fantasy

Apesar de ter se disseminado durante a Idade Média, após a construção de castelos ter se tornado um ato bastante comum por toda a Europa já haviam cercos na antiguidade, sendo que a representação mais antiga que temos deste tipo de tática data de três mil antes da era atual, que se encontra em uma tumba egípcia, também é egípcio os restos da máquina de cerco mais antiga do mundo, uma escada sobre rodas, existem também representações assírias, datando aproximadamente do século XIX ao XVII antes da era atual, incluindo entre os desenhos um aríete, tecnologia que teria começado a ser usada mais ou menos um século antes, a principal característica destes cercos da antiguidade é que estes se desenvolviam com certa rapidez, pois os exércitos de então não eram capazes de manter as tropas necessárias para tal tipo de ação por longos períodos.

Os romanos, como em quase tudo que se referiu à guerra na antiguidade, elevaram o nível técnico e desenvolveram formas mais eficientes de cercar e vencer as paredes de uma cidade. O <i>oppidum expugnare</i>, ou cerco, começava com a construção de um acampamento fortificado nas proximidades da cidade sitiada, em seguida eram erguidas torres de observação que ajudavam a vigiar a cidade além de servirem para avisar caso houvesse algum grupo se aproximando no intento de ajudar os sitiados, o cerco ainda contava com a construção de uma vala que circundaria toda a área sitiada, esta vala prevenia que os sitiados fizessem surtidas contra os atacantes, outras medidas também podiam ser tomadas, como a construção de rampas e trincheiras ou até mesmo a construção de uma vala externa ao acampamento para prevenir que um exército atacante viesse auxiliar os sitiados. O mais famosos caso de uma situação como esta na antiguidade é o cerco à cidade de Alésia, onde o líder gaulês Vercingetorix se encontrava sitiado, em algumas situações os romanos podiam também fazer escavações para derrubar as muralhas.

Após a construção das fortificações e medidas primárias terem sido tomadas era a hora das armas de cerco entrarem em ação, no caso dos romanos as suas principais armas de cerco eram o onagro ou catapulta, que consistia de um dispositivo bastante simples, capaz de lançar pedras usando a energia acumulada pela torção de cordas (o nome onagro inclusive, que significa jumento não domesticado, se refere ao fato de que quando a arma era acionada esta “dava um coice”) e de uma balista, uma espécie de arco montado verticalmente sobre uma base horizontal que se valia também de um sistema de cordas torcidas para lançar uma “flecha”. Estas duas armas eram usadas para criar um fogo de cobertura para que torres rolantes, basicamente grandes estruturas montadas sobre rodas que protegiam os atacantes e permitiam que estes ficassem no mesmo nível dos defensores facilitando a invasão, pudessem se aproximar das muralhas. Outras medidas de ataque incluíam grupos de soldados que protegidos por formações defensivas, como o famoso <i>testudo</i>, tentavam se aproximar das muralhas e portões e munidos com escadas ou aríetes tentavam criar outras brechas para a invasão. A última fase do cerco antigo consistia em conseguir abrir os portões para a entrada das tropas invasoras e assim garantir a tomada absoluta da cidade.

"Siege" por ortheza

“Siege” por ortheza

O castelo e o cerco

O fim do Império Romano e da Antiguidade clássica marcou uma importante mudança no cenário europeu, sem o poder centralizador de Roma diversos grupos “bárbaros” aproveitaram a fraqueza política e durante quatro séculos puderam quase impunemente atacar os reinos europeus, além da ameaça externa haviam, é claro, as ameaças internas, com grupos diversos de guerreiros com ambições próprias que lutavam por poder e posição. É neste cenário que os primeiros castelos são construídos, no intuito de reforçar ou proteger posições importantes estrategicamente. Estes primeiros castelos, chamados de castelos de mota (motte and bailey), se caracterizavam por serem construções muito simples, basicamente um monte de terra com alturas que variavam entre três e dez metros e com diâmetros que iam de trinta a noventa metros, onde se construía um forte e uma área cercada abaixo chamada de pátio (ou bailey em inglês) onde se concentravam a maioria das construções e da própria população do castelo, já que normalmente o forte no alto do monte servia de moradia apenas para o senhor local, quando muito, algumas vezes toda a construção era circundada por uma vala, que podia ou não ser inundada.

Durante este primeiro período da Idade Média o cerco pouco se desenvolveu. A maioria das táticas consistia ou em tomar a fortificação por meio de um engodo ou de forma inesperada (como os vikings fizeram na cidade italiana de Luna liderado pelo famoso líder Hastein, que fingiu estar morrendo e aceitando a fé cristã, para permitir que cinquenta homens seus entrassem acompanhando seu corpo, porém quando dentro da cidade os homens sacaram espadas e Hastein saltou de dentro de seu caixão, saqueando a cidade à seguir) ou tentar incendiar seções das paliçadas ou das construções mais próximas da parte externa e assim causar confusão e facilitar a invasão.

Com o desenvolvimento dos castelos, sobretudo após as cruzadas, quando os europeus tiveram contato com as técnicas de fortificação usada pelos árabes (muitos dos grandes castelos do Oriente Médio são originalmente construções árabes que posteriormente foram aumentadas ou adaptadas pelos cruzados) e também com suas técnicas de cerco (o trebutrebuchet ou trabuco é uma arma de cerco que tem suas origens provavelmente no Oriente Médio) que podemos falar que o cerco se torna parte importante do combate na Idade Média.

Os castelos eram importantes pontos estratégicos na Europa, fora a sua importância claramente defensiva nenhum líder de um exército se sentiria confortável sabendo que às suas costas havia um castelo rebelde, pois sua guarnição podia atacar linhas de suprimento ou informação assim como a retaguarda do exército de forma rápida e bastante desastrosa para seus inimigos, desta forma a tomada de castelos durante momentos de guerra se tornou parte crucial do que era a guerra medieval. Desta forma cada vez mais a construção de castelos fortes se tornou uma obsessão para os medievais, as muralhas externas se tornaram cada vez mais grossas e mais altas, portões passar a ser protegido por suas próprias fortificações (as chamadas barbacãs, uma espécie de pequena fortaleza que ajudava a proteger a entrada), surgiram as matacãs (aberturas que ficavam nas bases das ameias e que serviam para os defensores jogarem pedras e outras coisas nos atacantes), assim como passou-se a adotar muito mais o uso de torres redondas (menos suscetíveis aos disparos diretos das armas de cerco) do que suas antecessoras quadradas, haviam ainda outras medidas de proteção, mais antigas em sua origem, como por exemplo o fato de que o acesso à torre de menagem se dava pelo segundo andar, através de uma escada de madeira, que facilmente podia ser derrubada ou incendiada pelos defensores no intuito de atrasar ainda mais a tomada final do castelo, ou das escadarias que eram sempre construídas em sentido horário para quem a subia, de forma que o atacante tivesse mais dificuldade de brandir suas armas enquanto o defensor era protegido por uma parede em seu flanco esquerdo.

"The Siege" por TavenerScholar

“The Siege” por TavenerScholar

Os castelos, por último, normalmente contavam com grandes reservas de alimento, tanto conservado como na forma de animais vivos e vegetais plantados em hortas internas, e normalmente com um poço de forma que fosse possível para seus defensores ficarem longos período isolados sem acesso à recursos externos. Desta forma o castelo se mostrava um adversário bastante difícil de ser vencido, somando-se isso ao fato que ele podia ser mantido por uma pequena guarnição mesmo contra tropas bastante maciças, os estudos de guerra da época falam que para um cerco ser vencido pelos atacantes eles precisavam ter uma superioridade de dez homens para cada homem sitiado, podemos vislumbrar o quanto as táticas de cerco eram importantes.

Táticas de cerco

Normalmente o cerco medieval começava com o exército atacante acampando ao redor do castelo sitiado de forma a cortar as linhas de suprimento tanto de alimentos quanto de outros bens necessários, e esperando que a carestia forçasse os moradores do castelo a se renderem. Apesar de parecer uma tática bastante eficaz, como foi dito acima, a maioria dos castelos possuía grandes estoques de alimento (algumas vezes para mais de um ano) além de animais vivos e, normalmente, um poço que forneceria a água para consumo; Portanto, muitas vezes era mais fácil manter a guarnição do castelo alimentada do que o exército sitiador. Caso fosse possível, os sitiadores tentariam envenenar ou cortar as fontes de água, pois isso poderia forçar a guarnição a se render; Outros faziam-se valer de técnicas ainda mais terríveis como lançar cadáveres em putrefação ou infectados com peste dentro do castelo na esperança de disseminarem doenças.

Caso as técnicas que visavam a rendição não funcionassem, se iniciavam as tentativas de tomar efetivamente o castelo, fosse criando uma brecha numa das muralhas ou abrindo os portões para permitir a entrada das tropas. Este segundo tipo de tática podia inclusive empregar o engodo em certas ocasiões. Não raras eram as tentativas de subornar alguém dentro das muralhas ou infiltrar um espião que então se encarregaria de abrir os portões para as tropas invasoras; Esse espião podia tentar entrar disfarçado ou procurar algum ponto desprotegido para fazer sua tentativa. Existem inclusive relatos de tentativas de invasão, nem todas bem sucedidas, através dos <i>garderobes</i> (os banheiros, normalmente posicionados sobre o fosso numa das muralhas externas, ou ligados a este quando nas construções principais). Em casos que uma abordagem mais direta se fizesse necessária, uma das primeiras medidas era a construção de armas de cerco: as torres rolantes e os aríetes (alguns inclusive protegido por “carapaças” de madeira que desviariam os projéteis dos defensores), originalmente romanos, continuaram em uso mais ou menos da mesma forma que durante a antiguidade, porém o onagro e a balista foram paulatinamente substituídos pela muito mais eficiente e destrutiva trebuchet (enquanto o onagro precisava ser reposicionado após cada disparo, pois o “coice” que dava o tirava da posição e as flechas da balista tinham um certo limite máximo de peso, uma trebuchet, quando operada por um grupo experiente e competente, podia disparar a cada vinte minutos, com grande precisão, um projétil maior e mais pesado, sendo que ajustes na trajetória ou na direção podiam ser feitos sem precisar mover todo o conjunto da arma) e, mais para o final da Idade Média e início do Renascimento, pelos canhões, ainda de uso restrito e menos destrutivos do que viriam a se tornar.

Outra tática de tomada das muralhas era o uso das escadas: basicamente. grupos de soldados corriam até a as muralhas e erguiam grandes escadas na tentativa de conseguirem tomar a posição sobre as muralhas, não é preciso dizer que tais táticas normalmente resultavam em grandes perdas para os atacantes, mas algumas vezes essa tática era aplicada juntamente com ataques em diversos pontos, como distração para que os defensores ficassem impossibilitados de proteger eficientemente todo o perímetro das muralhas. Também havia outras formas de se tentar criar brechas nas muralhas: a escavação das bases de uma muralha, quando esta se encontrava em um terreno que não fosse apenas rocha sólida, as tropas atacantes, usando sapadores, podiam tentar cavar sob a muralha e depois incendiar as estruturas que mantinham o túnel, de forma que toda uma sessão da muralha desmoronasse devido ao peso e a falta de um apoio sólido. Com a evolução da artilharia, o cerco foi se tornando cada vez mais incomum, já que bastavam apenas alguns disparos de uma arma de grande calibre para abrir rombos grandes o suficiente para o exército invasor tomar a fortificação. Entretanto, durante mais alguns séculos os construtores procuraram soluções e as fortificações começaram a se tornar cada vez menos importantes e o cerco finalmente caiu em desuso.

O cerco numa aventura

A guerra é uma verdadeira constante em cenários de fantasia medieval, desta forma, a inclusão de um cerco, além de bastante simples, pode se tornar um ótimo gancho para uma aventura, tanto com os personagens atacando quanto defendendo um castelo. No caso dos aventureiros e seus aliados serem os atacantes, é interessante explorar aqueles pontos especiais das vantagens que cada jogador pôs em seu personagem, faça com que os guerreiros tomem parte das tentativas de assalto, os ladrões tentem invadir o castelo por meios escusos ou convencer um sitiado a abrir as portas e quem sabe o mago a usar aquela magia super-poderosa que ele nunca tem oportunidade de usar.

"The Siege of Moria" por Tulikoura

“The Siege of Moria”
por Tulikoura

Caso os personagens sejam os defensores, além da parte do combate, pode-se explorar a questão do racionamento de alimentos, a falta de armamento e até a necessidade de encontrar alguma espécie de solução para que os personagens não sejam obrigados a simplesmente desistir e se entregar (talvez uma porta escondida que leve para uma saída secreta longe do acampamento ou a possibilidade de um assassinato de um general durante a noite que faria o exército atacante debandar) tornando a tônica da aventura a capacidade dos personagens improvisarem e se sentirem importantes, fazendo realmente a diferença. Nos mundos de fantasia podemos acrescentar formas diversas de proteções ou defesas mágicas que ajudariam o castelo ou fortificação a sobreviver aos ataques mágicos e físicos, tornando ainda mais épica toda a batalha e suas consequências.

Quando pensamos na guerra medieval, quase sempre nos vêm à mente os grandes embates em campos abertos, com centenas de cavaleiros em armaduras brilhantes de cada lado, se chocando até um inevitável fim, porém os cercos eram muito mais comuns do que se pensa e com um pouco de imaginação e uma boa narrativa é fácil incluir de forma emocionante esse tipo de aventura na sua mesa. Por fim ,como sugestão de inspiração, vejam a batalha do Abismo de Helm, tanto em sua versão escrita, na obra de Tolkien, quanto na cinematográfica. Outras sugestões que podem inspirar mestres e jogadores incluem os filmes Linha do Tempo (2002, adaptação do livro de Michael Crichton), Cruzada (2005), Sangue e Honra (2011, que, apesar de fraco, tem cenas legais da tentativa de tomar um castelo), Robin Hood (2010, não exatamente um grande filme, mas com uma cena bastante longa de uma tentativa de tomada de um castelo) e o clássico Excalibur (1981, que mostra, em uma das cenas, a tentativa de tomar um castelo através de escadas).

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