Terminei a pentalogia Homecoming saga, de Orson Scott Card. Basicamente, é uma ficção científica inspirada no Livro de Mormon. No planeta Harmony, colonizado por humanos há 40 milhões de anos, um super-computador chamado Oversoul zela pela humanidade mantendo o nível de tecnologia livre de armas de guerra: há microondas, refrigeradores e seqüenciadores de DNA, mas ninguém consegue pensar em conceitos bélicos mais perigosos que uma adaga ou uma lança. Mas o/a Oversoul foi feito/a pra durar “apenas” 10 milhões de anos, e começa a falhar gradativamente. Seus satélites lentamente se desintegram, sua memória dá sinais de corrupção. Então ele/a decide selecionar um grupo de homens e mulheres para uma jornada de dez anos pelo ermo em busca dos artefatos dos primeiros humanos que podem levá-los de volta à Terra, abandonada depois de uma hecatombe nuclear, em busca do/a Keeper of Earth, um computador absolutamente poderoso e complexo, a única coisa que pode reparar o/a Oversoul. O/a Oversoul foi programado para selecionar pessoas com certas habilidades importantes para a viagem, não necessariamente decência ou passividade.

Ao longo dos cinco livros, o leitor é introduzido a vários personagens complexos e diversos. Em todo livro de Card que eu já li, o autor se mostra um grande escritor de personagens, capaz de fazer pessoas complexas, de personalidades ricas. Um grande ponto positivo da saga Homecoming é que, quando você está dentro da cabeça de um deles, você acredita no que o personagem está pensando! Seus argumentos fazem sentido e ele parece justificado em suas ações. Você precisa prestar atenção para se tocar que você está na cabeça de um vilão, que não! Esse cara tá errado! E é por isso que não usarei herói ou vilão para discernir entre protagonistas e antagonistas: não há pessoas recortes de papelão nesta história. Card não é um Albert Camus, mas ele consegue descrever pessoas com realismo, compreensão e profundidade.

Outra coisa legal são os paralelos que o autor traça com algumas histórias do Livro de Mórmon. Mas a pentalogia é tão panfletária quanto o animê Evangelion, com seus robôs gigantes e alienígenas monstruosos, é ideológico por usar conceitos cristãos como inspiração.

The Memory of EarthO primeiro livro (The Memory of Earth) basicamente apresenta todos os personagens, o mundo e, especificamente, Basilica, a “cidade das mulheres”, um experimento em democracia onde as donas de propriedade e autoridades políticas são todas mulheres; homens são proibidos de ter propriedade ou poder político ou mesmo de passar a noite na cidade a não ser que sejam casados com uma cidadã. Volemak, o pai de quatro dos protagonistas, é respeitado em Basilica por ser casado com Rasa, uma das figuras mais proeminentes daquela sociedade, e por ser sábio egeneroso (ser um dos homens mais ricos da região também ajuda). Casamentos são contratos renovados a cada ano e quem decide se renova ou não um homem é a mulher. A religião de homens e mulheres é um pouco diferente: a Oversoul possui apenas sacerdotisas mulheres, suas práticas são baseadas em água e há um lago que é proibido a homens de sequer olharem pra ele (Basilica fica na fronteira entre uma floresta, montanhas e o deserto); as mais prestigiosas adolescentes da história são duas irmãs que têm o poder de receber “sonhos verdadeiros” vindos da Oversoul e de ver as conexões entre as pessoas (incluindo reforçá-las ou destruí-las com palavras bem colocadas). A religião dos homens requer pequenos e dolorosos sacrifícios de sangue para o Oversoul. Apesar de todo mundo saber que o/a Oversoul é uma máquina e não um ser espiritual, as práticas do dia-a-dia confundem as duas idéias. Neste livro começam as maquinações do/a Oversoul para que os protagonistas sigam com sua missão, mas ele/a tem que convencê-los disso, o que já não é fácil, ainda por cima considerando o momento de instabilidade política por qual Basilica passa, com tentativas de assassinato e manobras de certos homens para arrebatarem o poder político das mulheres ou eliminar outros homens poderosos que estão satisfeitos com o estado das coisas em Basilica.

O segundo livro (The Call of Earth) introduz uma complicação nos planos dos escolhidos do/a Oversoul: um general estrangeiro, Moozh, consegue resistir às tentativas do/a Oversoul em “deixar as pessoas estúpidas” quando pensam em tecnologia ou planos belicosos, e marcha para Basilica. Seu desejo de conquista é alimentado por um profundo ódio pelo seu deus-rei e por ele ser de uma cultura que tentou o mesmo experimento que Basilica, mas que foi conquistada e eliminada pelos exécitos dos Gorayni (sua atual nação): Moozh, portanto, sente profundo rancor por uma cultura tão fraca quanto a de Basilica que “permite que homens sejam governados por mulheres”. Nesse ínterim, Volemak já se encontra no deserto, preparando a viagem para quando seus filhos e Rasa chegarem com o resto dos escolhidos do/a Oversoul e um artefato importante para a viagem. O problema é a presença dos Gorayni na região.

O terceiro livro (The Ships of Earth) descreve os nove anos em que a trupe (num total de dezesseis pessoas) viaja pelo ermo, seguindo as orientações do/a Oversoul. Rola muito conflito entre os membros da caravana, especialmente porque alguns não queriam realmente abandonar Basilica (é bem mais complexo que isso, mas não quero dar spoilers). Como o objetivo final deles é retornar à velha Terra e repovoá-la, todo mundo sai tendo filho a rodo ao longo do caminho.

No quarto livro (Earthfall), os protagonistas (e a próxima geração) finalmente chegam à Terra, após dez anos viajando a 10% da velocidade da luz (ou seja, cem anos depois de terem saído do planeta Harmony). Descobrem a Terra muitíssimo modificada por 40 milhões de anos de tectonismo e evolução. Todos os conflitos da trama são finalmente resolvidos; alguns de forma trágica, outros de um jeito muito bonito e positivo (também não vou dar spoilers).

O quinto livro, Earthborn, é o único em que não figuram os personagens dos primeiros quatro livros, exceto por um, por se passar quinhentos anos depois do quarto livro. Os personagens que seguimos até o livro quarto se tornaram heróis lendários e o conceito de um/a Oversoul como uma máquina criada por humanos já se confundiu com a idéia de uma divindade tradicional há muito, muito tempo (especialmente porque ninguém faz idéia do que é um computador, visto que esses novos terráqueos estão tecnologicamente na Era do Bronze). No começo, fiquei me perguntando se eu realmente precisaria ler este livro, se ele realmente é um capítulo da história ou só um “adendo”. Mas valeu a pena ler Earthborn para ver como as sementes dos primeiros personagens germinaram de maneiras inesperadas e como aquela cultura floresceu de formas imprevisíveis após meio milênio.

The Call of EarthAo longo da saga, Orson Scott Card usa conceitos ideológicos muito legais e alguns meio bestas. Através da narrativa e de seus personagens, ele argumenta que uma sociedade governada por homens em que mulheres não compartilham do poder ou dos mesmos privilégios que os homens é invariavelmente primitiva, violenta e fadada à obsolescência. Apenas quando mulheres detém igual poder e direitos ou partilham desse poder e direitos de uma forma dividida, porém equivalente (em Basilica, homens são os que viajam pelo deserto e têm contato com outras civilizações, portanto acabam sendo mais ricos, mas as mulheres detém o poder político e religioso), sociedades florescem saudáveis e pacíficas. Mas isso só é possível num ambiente civilizado: no deserto, por exemplo, selvagem e mortífero, homens machistas facilmente acumulam todo o poder político através de força bruta; civilização e civilidade só são possíveis graças à índole e à força de caráter de mulheres e de homens que não são machistas.

No terceiro livro, o autor também introduz um personagem homossexual que se torna uma das pessoas mais importantes da caravana; não vou dizer quem é, mas essa pessoa é freqüentemente retratada numa luz positiva, sendo inteligente, leal e dedicada, mas precisa manter segredo de sua preferência sexual pois mesmo em Basilica, tão civilizada, homossexuais são menosprezados (no mínimo) e detestados (e até mesmo alvo de crimes de ódio). O diálogo entre esse personagem e a única outra pessoa que sabe de seu segredo discute preconceito e estereótipo e especula sobre as origens da homossexualidade (spoiler: não é genética nem uma punição divina).

O conceito de família ao longo da saga muda muito: nos primeiros livros, família é uma coisa fluída graças aos casamentos e descasamentos e as relações sexuais flexíveis entre homens e mulheres: Raza não renova Volemak depois de um ano; passa alguns anos com outro homem, Gaballufix, e depois se casa novamente com Volemak e fica com ele permanentemente. Como ela teve filhos de dois homens diferentes, sua família é uma cama de gato de relações, tios mais novos que sobrinhos, filhos de Volemak com outra mulher que são tratados como irmãos de filhos de Raza com Gaballufix; depois há os sobrinhos, primos, e alguns alunos de Raza que são tratados como filhos postiços e, portanto, famíla, etc, etc, etc. Ou seja, o conceito de família é bem aberto a interpretações; basicamente, família é quem você diz que é. Isso é surpreendente vindo de um autor que na vida pública acredita tanto que família só o é se for constituída por um homem casado com uma mulher e pelos filhos deles que ele até fundou uma ONG para defender essas idéias na senda política. Na saga Homecoming, até mesmo casamento consangüíneo é discutido: no livro terceiro, quando eles estão na “terra prometida”, esperando até o/a Oversoul estar pronto/a para partir para a Terra, a bióloga e geneticista do grupo argumenta que não haverá problemas se primos e meio-irmãos se casarem e terem filhos, pois o/a Oversoul se preocupou em selecionar ninguém que tivesse os mesmos genes recessivos de deformidades ou doenças. Ou seja: o tabu da relação de consagüinidade é nulo se biologicamente não há problemas no “pool” genético daquela população.

The Ships of EarthAo longo da saga toda, o autor martela repetidamente que uma sociedade masculina muito facilmente se torna machista. Até mesmo personagens aliados se tornam “masculinistas” e menosprezam suas mulheres e filhas se vivem muito tempo numa cultura dominada por homens muito orgulhosos de serem homens e que dão graças a deus por não serem mulheres. Invariavelmente, os protagonistas só saem do enrosco em que se encontram quando mulheres e homens trabalham juntos.

Também gostei muito dos nomes de todos os personagens serem de difícil ligação étnica com culturas terrestres. Como alguns nomes me soaram como sendo do Oriente Médio e boa parte da história se passar no deserto, pra mim todos eles têm a pele acobreada ou morena, cabelos e olhos escuros. Ajudou o autor raramente adjetivar cor ou formato de cabelo e olhos, tom de pele ou mesmo comprimento ou existência de pêlos no rosto. Pensando bem agora, eu acho que Card nunca faz isso nos cinco livros, exceto quando a pessoa é grisalha, e só sugere que a língua que eles falam tem raízes no Russo no quarto livro, numa passagem tão rápida que quase não se nota.

Porém, algumas idéias sócio-políticas que Card misturou na sua epopéia me chatearam um pouco: não tem nenhuma mulher fisicamente poderosa, capaz de peitar um dos homens violentos da história, seja através de força física ou habilidade marcial; não há nenhuma Brigitte Nielsen, Grace Jones ou Ronda Rousey, são todas incapazes de se defenderem sozinhas, exceto através de palavras. Talvez isso seja parte da mensagem da saga: mulheres podem até ser cruéis e dissimuladas, mas os verdadeiros vilões são sempre os homens de índole violenta e que não respeitam mulheres como iguais. Mas nos anos em que eles passaram no deserto nenhuma mulher caça, porque caçar, ser forte e corajoso é coisa de homem.

(Ao escrever o parágrafo acima, me dei conta de que nenhum dos protagonistas homens que poderíamos chamar de heróis ou mocinhos são fisicamente capazes de se defenderem também; quando um deles adquire uma arma, ele se recusa a ser violento, mesmo que sua não-agressão lhe ameace a vida. Acho que o que o autor faz na história é igualar vilania com violência e bondade com pacifismo, não necessariamente que mulheres são indefesas.)

Também não gostei nenhum pouco que a personagem cientista, inicialmente descrita como centrada, ponderada, analítica e sem nenhum impulso ou interesse em se casar e ter filhos, no final revela que ela secretamente tem esses impulsos e estava enganando a si mesma. Ainda mais: ela não realmente se torna membro daquela nova sociedade enquanto não começa a parir como uma porca. Todas as mulheres nesta história acabam por se casar e ter um monte de filhos; Caramba, Orson, não podia salvar ao menos uma que conseguisse ser feliz e contribuir para a sociedade sem um macho ao seu lado e humanos em miniatura sugando suas tetas?

Earthfall(Preciso admitir que essas idéias me incomodaram porque eu sou sensível ao tópico e, portanto, me saltaram aos olhos. Consigo facilmente ver como, por exemplo, um leitor vegetariano talvez ficasse incomodado com a obsessão daquele povo com proteína animal quando viajam pelo ermo, porque o livro sugere mais de uma vez que eles vão todos morrer se viverem só de frutas, verduras e derivados do leite.)

Os livros da Homecoming Saga foram escritos entre 1992 e 1995; Card é geralmente bem prolixo, mas o espaço entre os livros sugere que ele tinha toda a história mais ou menos planejada de pronto. Apenas no último livro novos conceitos morais são introduzidos, como racismo, liberdade de culto e religião estatal. Em Earthborn, a pegada feminista volta com muito mais força do que nos livros iniciais, desta vez descaradamente ao invés da forma sutil dos quatro primeiros livros. Faltou só Card ir na sua casa e bater na sua cara com o livro para chamar sua atenção para os problemas do racismo e do machismo em nossa sociedade.

Até o livro quarto, religião é bem leve como tema. Todos os protagonistas sabem que o/a Oversoul é algum tipo de máquina, fazendo o misticismo em volta dessa “religião” algo praticamente ritualístico e pura norma social. No livro quinto, quinhentos anos se passaram para uma civilização que começou do zero, então os protagonistas anteriores ganham conotações míticas e místicas, e o/a Oversoul vira um/a deus/a de fato, com todas as vantagens e obrigações do cargo. Os protagonistas são seguidores do/a Oversoul, fiéis e pios; já os antagonistas são céticos e cínicos; a moral que permeia a história do livro é que você só vai vencer se você crer. O leitor sabe que o/a Oversoul existe mesmo, que não é uma divindade, que tem planos benéficos para a humanidade e que não seguir esses planos dá merda — mas os protagonistas de Earthborn não sabem disso, tratando os protagonistas dos outros quatro livros como heróis com super-poderes cujas histórias são modificadas para servirem à moral da vez. O livro traz uma mensagem clara: os crentes estão certos e os céticos estão enganando a si mesmos. Card faz todos os personagens racistas e machistas céticos e os protagonistas crentes bondosos e corretos. Se você é cético, agnóstico ou ateu e participa, lê ou assiste a discussões sobre o tema, vai notar que o autor inverte a lógica cética e, ao colocá-la nas bocas e nas mentes dos antagonistas, faz o ceticismo religioso ser uma coisa cínica e desonesta. Todos os livros da saga têm mensagens moralizantes de feminismo, pacifismo e comunitarismo; o quinto livro pega mais pesado nessas mensagen7s e acrescenta mais uma: crentes são bons, éticos e vencerão no fim, ateus são amorais, racistas e machistas.

EarthbornNão é por isso que eu daria uma estrela a menos para Earthborn (três, contra quatro estrelas para os outros livros). Earthborn não é tão bom quanto os outros por conta do deus ex machina descarado que acontece no final para desatar o nó górdio que Card atou ao longo da narrativa. Eu estava doido pra descobrir como os protagonistas iriam vencer, ou melhor, convencer os antagonistas de seus erros, especialmente porque os antagonistas estavam nadando de braçadas pela história, pervertendo com sucesso leis e costumes em sua cruzada política anti-clerical, ante-monárquica, machista. racista e plutocrática. Aí rola o deus ex machina e o livro acaba. Assim é fácil hein, Orson!

Talvez você tenha ouvido falar de Orson Scott Card recentemente por conta de críticas às visões políticas do autor. Provavelmente ouviu que ele é homofóbico ou anti-casamento gay ou de direita ou outras coisas. Recomendo a leitura (assim como as fontes) da seção sobre suas opiniões e posições públicas em seu verbete na Wikipedia. E também recomendo ler a pentalogia The Homecoming Saga. É um bom exemplo de como Card é um brilhante autor de ficção especulativa.

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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