Entre as várias distopias imaginadas em diferentes mídias nos anos 80 e 90, ninguém cogitou que nosso futuro de 2015 seria tão chato! Estamos cercados de pessoas hipersensíveis, hipócritas e que ameaçam processar tudo e a todos.

Vez por outra, porém, surge alguma obra mais autoral que ignora todo esse escopo “politicamente correto” e finge que nada mudou: que ainda podemos ficar à vontade, xingar terceiros e até mesmo rir perante o grotesco.

Infelizmente, não costumo ler muito quadrinho nacional (quero muito mudar esse fato), mas hoje venho indicar aos leitores do Notícias da Terceira Terra o autor carioca Guilherme de Sousa e seu universo que nos remete essa era perdida, aliás, que esse ano, lança sua terceira obra: “FIFO”, mas para falar dela, tenho que passar pelas duas anteriores.

QUER DANÇAR?

"Quer dançar" - 2013

“Quer dançar” – 2013

Publicada em 2013, a obra se mostra um ótimo ponto de partida para o que virá em seguida. Germinado de um tema que é considerado tabu, o autor torna o aborto um simples acidente para criar sua linha narrativa, que culminará em um épico apocalíptico envolvendo répteis mutantes e referências que vão de Nirvana à Planeta dos Macacos. A cereja do bolo, entretanto, é o estilo narrativo adotado: não há balões de fala. Nossa história é contada puramente através das ilustrações, tornando a imersão instantânea. Devido as cenas que brincam com o grotesco e que destróem o senso comum (bom, uma pessoa fazendo sexo com um crocodilo tende a surtir esse efeito…kkkkk), recomendo ler a revista duas vezes. Na primeira, você estará com um sorriso nervoso estampado no rosto, na segunda, irá gargalhar de fato, da surrealidade dos eventos. Assim, “Quer dançar?” é a porta da frente para esse mundo: para entender o tom e se desvincular do senso comum tão ditado por aí.

A ÚLTIMA BAILARINA

Marcado por uma forte paleta de cor, nessa obra, lançada em 2014, Guilherme de Sousa faz um contraste com cores vibrantes e o mundo devastado e sanguinário tomado por zumbis.

"A última bailarina" - 2014

“A última bailarina” – 2014

“A última bailarina” é a menina Laurita, tomada por uma ingenuidade doentia, ela cria as situações de perigo e move a trama, sendo protegida por Fifo, um urso de pelúcia de pavio curto e desbocado. Além disso, soma-se ao grupo um unicórnio gay, que por seus complexos de ego e criação traumática, também não é a melhor das companhias nesse cenário distópico. É fácil rir de Laurita criando as situações mais absurdas: como querer fazer amizade com zumbis, adotar um gato zumbi e ensinar balé ao unicórnio Leo, em pleno clímax narrativo, enquanto Fifo enfrenta uma horda de zumbis. Não sei se foi proposital, mas para os team-Freud de plantão, poderíamos até encaixar os personagens principais nas três forças propulsoras da mente humana, com Luarita sendo o Id, Fifo sendo o Ego e Leo o Superego. A saber: Id é a parte regida pelo prazer imediato, e desconhece o julgamento entre moralidade e ética. Ego é o equilíbrio entre as exigências do Id e filtra as duas outras facetas. Por fim, o Superego, que é a interiorização das proibições, dos complexos. Tudo o que o Superego queria, é ser perfeito, assim como um unicórnio gay…kkkk

Mas, deixando a psicanálise de lado, “A última bailarina” é recomendada aqui, por ser uma aventura divertida, cheia de referências da cultura pop e muito bem decupada, ilustrada e colorizada. Sem dúvida alguma, uma aula prática de como se fazer quadrinhos, independente do estilo.

FIFO

"FIFO" - 2015

“FIFO” – 2015

Revisitando o mundo de “A Última Bailarina”, o autor retorna agora em seu recente lançamento, para nos contar a origem de Fifo, sim, aquele urso de pelúcia irritadiço e desbocado. Saiba você que ele já foi um ursinho doce e inocente, mas agora seremos testemunhas dos adventos que o deixaram amargo e paranóico. Vale ressaltar que o autor utiliza novamente de uma narrativa sem balões de diálogo, recurso que gosto muito, mas que não é fácil de ser trabalhado. Se com o diálogo você pode contextualizar os personagens e o cenário (na verdade é a forma mais preguiçosa de se fazer isso), em uma narrativa “muda”, você tem que ilustrar e situar sua história, de maneira mais efetiva e enxuta possível. Felizmente, Guilherme de Sousa acerta também em “Fifo”, a amizade do menino com seu ursinho é bonita de fato e muito bem aprofundada e a todo momento, o autor utiliza um recurso do cinema chamado “pista-recompensa”, que serve para explicar fatos vindouros e contextualizar o início da “Bailarina”.

CONCLUSÃO

Guilherme é formado em Cinema e isso é marcante em suas três obras até agora, quadros bem decupados, ótimo pacing narrativo, pontos de virada e estruturas bem delineada. O resultado final é um simples pensamento: “cara, deveriam fazer uma animação disso! ”

Atualmente, as revistas estão dentro do selo Korja dos Quadrinhos e para aqueles que querem fugir do pseudomoralismo e se divertir com o grotesco, segue o link para compra das HQs:

Quer Dançar: http://korja.com.br/titulos/quer-dancar-37.html

A Última Bailarina: http://korja.com.br/titulos/a-ultima-bailarina/a-ultima-bailarina.html

Fifo: http://korja.com.br/titulos/fifo.html

Aqui, podem conferir o portfólio do autor:

http://artedeguilhermedesousa.tumblr.com/

Boa leitura a todos!

Trabalha com Cinema e TV desde 2005 e joga RPG desde 1994, ao qual mantém uma relação de amor e ódio com D&D. Dono do podcast de cultura pop Dimensão 7.

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