Aviso: Este artigo não contém dicas de jogo, personagens inéditos ou observações que possam servir para tornar sua mesa mais divertida. É, portanto, fruto de escrutínio totalmente inútil, mas que (acredito) interessante em seus próprios termos. Não é sem propósito que assino como Herói do Ócio. Aos economistas de plantão, peço que sejam coniventes com a simplificação absurda (e em alguns pontos idiossincrática) em que exponho princípios sólidos da teoria monetária.

Já tive a oportunidade de ver as estatísticas do Tarrasque.

© 2011 breathing2004

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Não me impressionei.

Cheguei a folhear o Deities & Demigods, analisar as fichas dos Deuses e não achar lá grande coisa. Personagens poderosos são iguaizinhos a criaturas de baixo nível — só que com com números maiores.

Mas há uma criatura no D&D que causa o puro caos por qualquer local civilizado em que passe. Nenhum reino está a salvo das catástrofes que o acompanham, não importa quão grandes sejam suas milícias e exércitos. Dada sua presença, pobreza e fome aflige pequenas vilas. Cidades inteiras são atormentadas com prolongadas crises. Países ficam desestabilizados.

Estou me referindo aos aventureiros. E isso não tem nada a ver com poder de destruição em combate.

Grande parte da diversão do D&D deve-se ao fato de que ele não é de forma alguma simulação confiável da realidade. Isso é afinal o que torna as proporções do jogo mais épicas. Quantas pessoas realmente sobreviveriam a um ataque de Dragão, uma batalha contra um Troll ou uma viagem planar? O fato de que os personagens dos jogadores são incorporados numa mecânica diferente da maioria dos NPCs apenas reforça seu status como pessoas excepcionais e heróicas — estão portanto muito acima do padrão.

O realismo não é o foco do D&D. Mas alguém já prestou atenção em sua sua economia?

Utilizarei como exemplo a terceira edição, que é a que possuo mais familiaridade. No primeiro nível, espera-se que um grupo de aventureiros que enfrente um encontro adequado possa pilhar um tesouro de aproximadamente 300 peças de ouro. Em média, são necessários 3.3 encontros de ND 1 para que um grupo de 4 aventureiros possa atingir o segundo nível. Isso quer dizer um tesouro de 990 peças de ouro, distribuídas igualmente entre os membros do grupo – enriquecendo cada um deles em pouco mais de 247 po.

© 2011 daarken

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“Mas e daí?” — Poderia o leitor se perguntar nesse momento.

Segundo a teoria monetária da escola econômica austríaca, há uma relação muito íntima entre a quantidade de dinheiro circulante e o poder de compra de determinada moeda. Alguns economistas austríacos acreditam que a inflação é definida como o produto de políticas de aumento da base monetária no mercado, seja na forma de cunhagem ou na impressão de papel-moeda. Outras escolas preferem definir a inflação através de seus efeitos – isso é, o aumento generalizado no preços dos bens e serviços. Qualquer que seja o caso, a introdução de mais dinheiro no mercado invariavelmente vai causar uma progressiva desvalorização da moeda. Ao longo do tempo, o dinheiro perde seu poder de compra.

Quando os aventureiros enchem seus bolsos de moedas de ouro e as levam até a civilização, não há um correspondente aumento na produção de bens e serviços. Nenhum camponês é capaz de prever que heróis irão surgir na cidade trazendo muitas moedas de ouro, intensificando as trocas e alterando drasticamente o funcionamento do comércio na região. Se há mais moeda circulante do que bens e serviços disponíveis no mercado, a lei da oferta e demanda exige que o valor de troca do dinheiro seja reduzido, refletindo a escassez dos produtos em comparação à abundância do dinheiro.

Funciona assim: da próxima vez que o seu guerreiro gastar 1.200 PO comprando uma armadura de batalha completa no ferreiro de um pequeno vilarejo, a quantidade de dinheiro que normalmente circula no local recebeu um aumento de 1.200 Peças de Ouro (um aumento enorme, se você está familiarizado com o sistema econômico do D&D). O ferreiro, agora com 1.200 PO adicionais em sua receita mensal, irá gastar esse dinheiro comprando mais bens e serviços dos outros artesãos da cidade, que também terão um substancial aumento no seu padrão de compra.

Certo tempo depois, o dinheiro adicional foi distribuído entre todos os comerciantes e membros economicamente ativos da cidade. Mas apesar de todo esse dinheiro ter caído nas mãos dos cidadãos, não houve um proporcional aumento na capacidade produtiva da cidade. Em outras palavras, todos irão perceber que possuem mais moedas de ouro consigo, mas a quantidade de bens e serviços disponíveis no vilarejo continua praticamente a mesma. De acordo com a lei da oferta e demanda, quando a demanda dos aldeões por bens e serviços aumenta (graças a um aumento na sua capacidade de compra) mas a oferta dos mesmos bens e serviços permanece inalterada, o preço destes bens e serviços tende a aumentar.

Os efeitos a longo prazo — observáveis muito depois do nosso grupo ter deixado a cidade ou vila em questão — ocasionam uma redistribuição generalizada da riqueza na região. Aqueles camponeses que poupavam cada peça de cobre para emergências, produzindo apenas o necessário para o próprio sustento, verão suas reservas perderem drasticamente seu valor (já que elas não compram agora a mesma quantidade de bens que compravam antes). Aqueles que, em contrapartida, se beneficiaram imediatamente da chegada dos personagens no local, estarão proporcionalmente mais ricos do que estariam normalmente.

Para ter uma noção de como a questão é grave, cito dois pontos históricos:

© 2007 Miggs69

© 2007 Miggs69

No século XIV, o economista normando Nicole Oresme escreveu um tratado (intitulado De Moneta) defendendo a morte como pena para pessoas que falsificassem dinheiro ou alterassem de forma significativa a circulação de moeda nos reinos. A França havia passado diversas reformas monetárias, e Oresme acreditava que era papel do governante determinar a quantidade de dinheiro que circula no reino.

Até o início do século XX, os aumentos salariais na Inglaterra eram combatidos através da impressão de dinheiro pelo governo, ocasionando uma diminuição real do poder de compra do ordenado dos trabalhadores. Ao perceberem que as reinvidicações trabalhistas eram concedidos apenas formalmente, e na prática eram revertidas através da inflação, surgiram os defensores do reajuste salarial indexado à inflação.

Quanto maior o nível da campanha, maior é a quantidade de dinheiro que é introduzido no mercado artificialmente pelos personagens. Cada uma de suas explorações por tumbas a milênios esquecidas, cada pilhagem de tesouros de dragões ancestrais – pode ser responsável por uma crise inflacionária em um reinado.

Me pergunto quantas pessoas já questionaram o fato de que as moedas de D&D não possuem nacionalidade. Também não constam explicações razoáveis de como são cunhadas, ou como é possível impedir um mago especialista em transmutação de simplesmente fabricar dinheiro do nada.

Ainda bem que D&D não é realista.

O Herói do Ócio não come absolutamente coisa alguma que venha do mar – inclusive sereias. Seus interesses incluem RPG, Mass Effect e filosofia anglo-saxã. Escreve com regularidade sobre temas diversos (majoritariamente inúteis) e possui também um blog sobre política: “Quem é John Galt?”.

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