Há uns dez anos atrás, eu encontrei, enfiada numa gaveta, uma edição brasileira da Wizard que descrevia Gotham City, com mapa e tudo. A parte que mais me chamou atenção na matéria, ao relê-la, foi ter sido escrita do ponto de vista de um gothamita — logo, a única foto do Batman era difusa e distante, alegando-se que o Homem-Morcego era uma lenda do submundo do crime e que muita gente nem acreditava que ele existia. Algo entre o Demônio de Jersey e E.T.s.

© 2008 tomasNY

© 2008 tomasNY

Decidi pesquisar mais sobre a cidade fictícia na internet da época e usá-la como cenário numa nova campanha de Vampiro: A Máscara. Funcionou maravilhosamente.

Gotham City é um ótimo lugar para jogos mais sérios, como Storytelling ou aventuras policiais usando Savage Worlds, Trail of Cthulhu ou até mesmo Mutant City Blues. Como Frank Miller uma vez disse, “Gotham City é Nova Iorque à noite”1. Um centro metalúrgico, químico, têxtil e pólo artístico como Gotham pode ser povoado por vampiros, fantasmas, mutantes e cultistas com facilidade.

Pesquisar sobre a cidade é relativamente fácil, você não precisa correr atrás do artigo da Wizard que eu citei2. A Wikipedia tem um bom artigo sobre a cidade, em particular sua fundação, história, localização (que muda conforme a vontade do roteirista) e pontos de interesse. Lá tem até um mapa da cidade com legenda e tudo.

O que eu, em particular, recomendo, é deixar a cidade e seus personagens como estão, seja sua fonte as séries Contágio/Cataclisma/Terra de Ninguém, dos anos 1990, ou o game Batman: Arkham City. Pode ser tentador transformar metade dos criminosos malucos da cidade em malkavianos (e o Killer Croc em um Nosferatu) mas eu acho isso barato, clichê de diminui a experiência de se estar jogando numa cidade viva e independente do que os personagens façam ou deixem de fazer. O Pinguim é um gângster, dono do cassino Iceberg Lounge, que não é um haven vampírico; a Ace Chemicals não é gerida pelos Dançarinos da Espiral Negra. Mantenha o tom do jogo (no caso de Storytelling) como os livros de RPG sugerem: vampiros, lobisomens, hunters e changelings são criaturas raras e quase ninguém sabe sobre elas (Bane não é um ghoul!). Permita que seus personagens interajam com a galeria de vilões do Batman, sim — ocasionalmente. Deixe-os como pano-de-fundo, parte do cenário, elementos do sabor da cidade. O legal de Gotham City é sua opressão, criminalidade endêmica, o cinismo estóico de seus habitantes, a política e a polícia corruptas. Talvez os nosferatu tenham medo do Killer Croc, por exemplo, mas sua mensão deve ser ominosa, uma sugestão de perigo, não o vilão-saco-de-pancada da semana. Ao invés de ter os PCs perseguindo o Coringa por ele ter roubado do Príncipe, faça uma série de sessões em que os PCs precisam encontrar um artefato roubado por um ladrão comum, mas no meio do pandemônio causado pelo Coringa ter envenenado a água da cidade.

© 2009 duss005

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Use vilões menores (ou seja: menos conhecidos do público em geral) como Black Mask, Great White Shark (dois gângsters violentos), Rupert Thorne (um contrabandista), Hush, Prof. Hugo Strange, Deadshot e outros criminosos mais críveis e menos espalhafatosos. Esses caras são NPCs prontinhos, o que sempre empresta um ar de tridimensionalidade e verossimilhança a qualquer jogo — e seus jogadores fãs de quadrinhos irão exultar com esses “guest stars” e “Easter eggs”.

Para jogos de horror como Trail, Call ou Realms of Cthulhu, Gotham City é um prato cheio e transbordante de ocultismo. A própria cidade fora fundada por pessoas com laços satânicos3; houve um período de caça às bruxas na cidade em seus primórdios4; dizem que uma criatura monstruosa dorme há quarenta mil anos sob a cidade, sutilmente influenciando tudo de ruim que ocorre em Gotham5. A galeria de vilões do Batman tem alguns personagens com fortes ligações com o oculto: Dr. Kirk Langstrom é um cientista brilhante, amaldiçoado com algo que podemos descrever como licantropia, só que ele vira um morcego gigante, não um logo gigante; Ra’s al Ghul é um bruxo imortal; Joseph Blackfire (Batman: The Cult) é um líder de culto; Death Rattle (Arkham Asylum: Living Hell) também é líder de culto, assassino em série e (talvez) possa falar com os mortos (que o mandam sair matando, claro). E eu nem preciso citar o Asilo Arkham, manicômio com origens sinistras6 que foi abertamente inspirado em H. P. Lovecraft.

Capa de Gotham Central #1, por Michael Lark.

Capa de Gotham Central #1, por Michael Lark.

É possível fazer até mesmo histórias policiais realistas e sisudas. A série Gotham Central é tão boa para isso que dá vontade de pegar os roteiros do Ed Brubaker e transformá-los em sessões de jogo exatamente como estão. Novamente, alguns vilões do Batman menos conhecidos do público são ideais para esse tipo de jogo — Victor Zsasz é “apenas” um serial killer; Doctor Hurt é um psiquiatra insano e perigoso; Julian Day, o Homem-Calendário, é um gênio do crime que faz a cidade se sentir apreensiva toda vez que um feriado se aproxima, pois é quando ele comete seus crimes mais hediondos, envolvendo a morte de dezenas de pessoas.

Minha última sugestão: não use o Batman. Vou repetir: Não. Use. O. Batman. A pior coisa que pode acontecer num jogo de D&D é o Drizzt ou o Elminster aparecerem. Esses caras roubam a cena. Os protagonistas da sua história são os PCs, não algum super-herói invencível. Você pode usar a “lenda” do Batman: os PCs podem ouvir um traficante contando pro outro num beco escuro que viu o Homem-Morcego uma vez, pulando de um prédio para o outro. Reveja o começo do Batman do Tim Burton, de 1989, para ter uma idéia (o filme parece meio galhofa para os padrões de hoje, mas a essência é o que conta: lembra dos dois bandidos conversando sobre o que ouviram sobre o Batman? Como ele atirou um cara do quinto andar, mas o cara não tinha sangue no corpo? Depois do encontro com o Batman no começo do filme, certamente eles irão dizer que o bicho é imortal, pois o balearam a queima-roupa só para vê-lo se levantando no segundo seguinte). E o mais importante: avise seus jogadores que não vai ter super-herói no jogo. Deixe bem claro que o Batman é uma lenda inventada pela polícia para assustar bandidos. Você pode até fazer um PC ou outro ver “alguma coisa” se por um acaso apanhou até a beira da morte e foi deixado num beco, sangrando e semi-consciente. Mas não use o Batman. Ou o Robin (qualé).

Gotham City pode ser um dos melhores cenários de campanha que você já usou. Há material o suficiente sobre a cidade na internet e nos quadrinhos7 para você precisar fazer apenas um mínimo de dever de casa. É um ambiente ao mesmo tempo vagamente familiar e terrivelmente estranho para qualquer jogador. E é praticamente um cenário prontinho para ser usado.


1 Conforme citado pelo site The Big Apple
2 Artigo “Gotham City Guide”, da Wizard #61 (acho que saiu na #12 brasileira, numeração Editora Globo, mas não vou jurar).
3 Batman #452 a #454, como detalhado em Comic Book Resources.
4 Batman: The Return of Bruce Wayne #2. Rola até criatura com tentáculos.
5 Shadowpact #5.
6 Game Batman: Arkham Asylum.
7 Ignore os filmes do Chris Nolan para fins de RPG; eles são realistas demais e Gotham neles parece Chicago, não uma versão sombria de Nova Iorque.

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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